JESUS EXISTIU?
Por Frank R. Zindler
"Eu sempre aceitei como fato que Jesus de Nazaré tenha existido. Alguns escritores sentem necessidade de justificar esta afirmação de uma vez por todas, já que as pessoas de tempos em tempos tentam negá-la. Seria mais fácil, francamente, acreditar que o Imperador Tibério, contemporâneo de Jesus, fosse obra da imaginação do que acreditar que nunca tenha existido uma pessoa como Jesus."
N. T. Wright, Jesus and the Victory of God (Fortress, 1996)
Por toda minha vida eu aceitei que Jesus, embora certamente não fosse um deus, seria no entanto um personagem histórico – talvez um mágico com habilidades hipnóticas. Reconheço que sabia que alguns dos maiores literatos do mundo tinham negado sua existência. Apesar disso, sempre supus ser improvável que pudessem aparecer tantas histórias sobre alguém que nunca tivesse existido. Mesmo no caso de outras divindades, tais como Zeus, Thor, Isis e Osiris, eu sempre aceitei como fato que eles foram meramente heróis humanos que foram endeusados, homens e mulheres que viveram nos últimos estágios da pré-história, pessoas cuja reputação foi melhorando mais e mais no tempo que passou após suas mortes. Deuses, como os vinhos finos, eu acreditava, melhoram com a idade.
Há cerca de uma década, porém, comecei a reexaminar as provas da historicidade de Jesus. Fiquei impressionado com o que não encontrei. Neste artigo, eu gostaria de mostrar o quão instáveis são as provas a respeito da alegada existência de um suposto messias chamado Jesus. Eu agora sinto que é mais razoável acreditar que ele nunca tenha existido. É mais fácil explicar os fatos da história dos primórdios do Cristianismo se Jesus tiver sido uma ficção do que se tiver sido real.
O Ônus da Prova
Apesar de que o que se segue possa ser interpretado como sendo uma prova da não existência de Jesus, é preciso que se compreenda que o ônus da prova recai sobre aqueles que afirmam que alguma coisa ou processo existe. Se alguém afirma nunca ter que se barbear porque todas as manhãs, antes de entrar no chuveiro, é atacado por um coelho de 1,90 m de altura com dentes afiadíssimos, que lhe apara a barba melhor que uma navalha - se uma pessoa fizer uma afirmação desse tipo nenhum cético precisa se incomodar em elaborar uma refutação. A não ser que sejam apresentadas provas dessa afirmação, o cético pode tratá-la como falsa. Isso nada mais é que uma prática sensata do dia-a-dia.
Diferentemente de N.T. Wright, citado no início deste artigo, um pequeno número de acadêmicos tem tentado através dos séculos provar que Jesus era realmente histórico. Quando examinarmos suas "provas", é instrutivo compará-las ao tipo de provas que temos, digamos, para a existência do Imperador Tibério – aceitar o desafio feito por Wright.
Podemos admitir que não seja surpreendente que não haja moedas sobreviventes do primeiro século com a imagem de Jesus nelas. Ao contrário do Imperador Tibério e do Imperador Augusto que o adotou, não se acredita que Jesus tenha tido controle sobre alguma casa da moeda. Mesmo assim, devemos salientar que temos moedas datadas do primeiro século que trazem imagens de Tibério e que mudam com a idade dele. Temos até mesmo moedas cunhadas por seu predecessor, Augusto César, que mostram de um lado Augusto e seu filho adotivo de outro1. Poderia o Sr. Wright nos fazer acreditar que essas moedas são produto da imaginação? Estaríamos lidando com falsários?
Estátuas que podem ser datadas arqueologicamente sobrevivem para mostrar Tibério na juventude, como um homem jovem assumindo o manto como imperador etc.2 Gravuras e jóias o mostram com toda a sua família.3 Biógrafos que foram seus contemporâneos ou próximos o citaram por suas cartas e decretos e recontam sua vida nos mínimos detalhes.4 Existem inscrições contemporâneas por todo primeiro império que registram seus feitos.5 Existe um ossário de pelo menos um membro de sua família, e foi encontrado o texto Grego de um discurso feito por seu filho Germânico em Oxyrhynchus no Egito.6 E então há as ruínas de seu palacete em Capri. Nem devemos esquecer que Augusto César, em seu Res Gestæ ("Ações Realizadas"), que sobrevive em Grego e Latim no assim chamado Monumentum Ancyranum, menciona Tibério como seu filho e co-administrador.7
Será que existe alguma coisa que os defensores da existência histórica de Jesus possam apresentar que pudesse ser tão convincente como estas provas da existência de Tibério? Eu acho que não e agradeço a N.T. Wright por fazer um desafio que traz esta disparidade tão claramente à luz.
Existe mesmo apenas uma área onde se chega a alegar que as provas da existência de Jesus são similares às oferecidas para a de Tibério - no campo das biografias escritas por contemporâneos ou quase contemporâneos. a Às vezes afirma-se que a Bíblia contém essas provas. Às vezes afirma-se existirem também provas extra-bíblicas. Examinemos então essas supostas provas.
"Provas" no Velho Testamento
Vamos considerar primeiro as assim chamadas provas Bíblicas. A despeito das declarações de apologistas Cristãos, não existe absolutamente nada no Velho Testamento (VT) que seja de relevância para nossa questão, além de que alguns profetas possam ter acreditado que um "ungido" (rei ou sacerdote salvador) reassumiria um dia a liderança do mundo Judeu. Todos os muitos exemplos de "predições" do VT sobre Jesus são tão ingênuos que basta apenas uma olhada para perceber sua irrelevância. Thomas Paine, o grande herege da Revolução Americana, fez exatamente isso e demonstrou a irrelevância deles no livro An Examination of the Prophecies (Um Exame das Profecias), destinado a ser a Parte III de The Age of Reason (A Idade da Razão).b
"Provas" do Novo Testamento
A eliminação do VT deixa somente as "provas" do Novo Testamento (NT) e o material extra-bíblico a serem considerados. Essencialmente, o NT é composto de dois tipos de documentos: cartas e o que seriam biografias (os chamados evangelhos). Uma terceira categoria de manuscritos, apocalípticos,c dos quais o Livro da Revelação (Apocalipse) é um exemplo, também existem, mas não dão respaldo à historicidade de Jesus. De fato este parece ser um fóssil intelectual do mundo imaginário do qual o Cristianismo brotou – um apocalipse Judeu que foi retrabalhado para uso pelos cristãos.8 O principal personagem do livro (mencionado 28 vezes) pareceria ser "o Cordeiro", um ser astral que apareceu em visões (sem prova histórica aqui!), o livro todo cheira à velha astrologia.9
O nome Jesus ocorre somente sete vezes no livro inteiro, Cristo só quatro vezes e Jesus Cristo só duas! Enquanto o Apocalipse possa muito bem derivar de um período muito antigo (contrário da visão da maioria dos estudiosos bíblicos que tratam com o livro somente na sua forma final) o Jesus que o livro cita obviamente não é um homem. É um ser sobrenatural. Não tinha ainda adquirido as propriedades fisiológicas e metabólicas que encontramos nos evangelhos. O Jesus do Apocalipse é um deus que mais tarde seria feito homem - não um homem que poderia mais tarde se tornar um deus, como os estudiosos religiosos liberais pensariam.
Os Evangelhos
A idéia de que os quatro "evangelhos inclusos no oficial Novo Testamento teriam sido escritos por homens chamados Mateus, Marcos, Lucas e João não remonta aos primórdios do cristianismo. Os títulos "Segundo Mateus" etc., não foram adicionados até o final do segundo século. Assim, embora Pápias, cerca de 140 EC (Era Cristã) conheça todos os evangelhos, mas só tenha ouvido falar de Mateus e Marcos, Justino, o Mártir (cerca de 150 EC) não conhece nenhum dos quatro supostos autores. É somente em 180 EC, com Irineu de Lyon, que ficamos sabendo quem escreveu os quatro evangelhos "canônicos" e descobrimos que há exatamente quatro porque existem quatro cantos da terra e quatro ventos universais. Assim, a não ser que se presuma que os argumentos de Irineu são algo mais que ridículos, concluímos que os evangelhos são de origem e autoria desconhecidas, e que não há nenhuma boa razão para se supor que sejam relatos de testemunhas oculares sobre um homem chamado Jesus de Nazaré. No mínimo, isso nos força a examinar os evangelhos para verificar se seus conteúdos são ao menos compatíveis com a idéia de que teriam sido escritos por testemunhas oculares. Não podemos sequer assumir que eles tenham tido mais de um autor ou redator.
É claro que os evangelhos de Mateus e Lucas não poderiam ter sido escritos por uma testemunha ocular das histórias que contam. Ambos plagiaram d (amplamente, palavra por palavra) até 90% do evangelho de Marcos, ao qual adicionam palavras e adágios de Jesus e e supostos detalhes históricos. Ignorando o fato de Mateus e Lucas se contradizerem mutuamente em alguns detalhes cruciais sobre a genealogia de Jesus – logo os dois não podem estar corretos – temos que perguntar qual é a real testemunha ocular que teria que plagiar todos os ingredientes da história, satisfazendo-se em adicionando meramente alguns temperos. Uma testemunho ocular verdadeira teria começado com um versículo dizendo "Agora, garotos, vou contar a vocês a história de Jesus, o Messias, do jeito que realmente aconteceu..." A história seria uma criação exclusiva. É significativo que apenas esse dois evangelhos se proponham a contar algo sobre o nascimento, infância e ancestralidade de Jesus. Ambos podem ser desconsiderados por falta de confiabilidade, sem maiores considerações. Não podemos saber nada sobre a infância ou origem de Jesus.
Marcos
Mas, que tal o evangelho de Marcos, o mais antigo remanescente? Atendo-se à sua forma final provavelmente datada de 90 EC mas contendo material central de 70 EC, ele omite, como já vimos, quase toda a biografia tradicional de Jesus, começando a história com João Batista dando um banho em Jesus, e terminando – nos manuscritos mais antigos - com mulheres correndo assustadas da tumba vazia. (A supostas aparições pós-ressureição relatadas nos últimos doze versículos de Marcos não são encontradas nos manuscritos mais recentes, embora ainda estejam impressas na maioria das Bíblias modernas como se fossem uma parte "autêntica" do evangelho de Marcos.) Além do mais, por ser "Marcos" um não-discípulo não-palestino, mesmo os pobres detalhes históricos ele que fornece não são confiáveis.
Dizer que o relato de Marcos é "pobre" é abrandar o caso. Não há realmente muita coisa no evangelho de Marcos, as lendas do nascimento, genealogia, maravilhas da infância, estão todas ausentes. Enquanto que o evangelho de Lucas toma 43 páginas na Nova Bíblia Inglesa, o de Marcos ocupa somente 25 páginas - meros 58% de quantidade de material! As histórias realmente crescem quando contadas novamente.
Eu afirmei que o desconhecido autor de Marcos não era Palestino nem discípulo, o que poderia fazer de sua história um simples boato. Que provas nós temos para fazer esta afirmação? Antes de tudo, Marcos não demonstra nenhuma compreensão própria da situação social da Palestina. Ele é claramente um estrangeiro, removido tanto do tempo como do espaço dos eventos que ele alega. Por exemplo, em Marcos 10:12, relata Jesus dizendo que se uma mulher se divorcia do marido e casa-se com outro, comete adultério. Como G. A. Wells, o autor de The Historical Evidence for Jesus 10 (As Provas Históricas de Jesus) declara,
Tal expressão não faria sentido na Palestina, onde só o homem podia obter divórcio. É uma regra para os leitores Cristãos não Judeus... que os evangelistas puseram na boca de Jesus para conferir a ela autoridade. Essa tendência de ancorar costumes e instituições antigas à suposta vida de Jesus representa um papel considerável na construção de sua biografia.
Outra prova da não autenticidade de Marcos é o fato de que no capítulo 7, onde Jesus está discutindo com os Fariseus, descreve-se Jesus citando a versão de Isaías da Septuaginta grega para apoiar seu argumento no debate. Infelizmente, a versão hebraica é um tanto diferente da Grega. Em Isaías 29:13, em Hebraico, lê-se "seu temor para comigo consiste em mandamentos de homens, aprendidos de cor" enquanto que na versão Grega – e no evangelho de Marcos – se lê "em vão cultuam a mim, ensinando como doutrinas preceitos do homem" (Revised Standard Version). Wells observa com indiferença (p.13). "É muito improvável que um Jesus palestino conseguisse vencer uma discussão com judeus ortodoxos usando um argumento baseado numa tradução equivocada das escrituras deles". Sem dúvida!
Outro argumento poderoso contra a idéia que Marcos poderia ter sido testemunha ocular da existência de Jesus é baseada no fato que o autor de Marcos mostra uma profunda falta de familiaridade com a geografia Palestina. Se realmente tivesse vivido na Palestina não poderia ter feito os deslizes encontrados no evangelho. Se nunca viveu na Palestina, não poderia ter sido testemunha ocular de Jesus. A escolha é sua.
O erro geográfico mais absurdo que Marcos comete é quando conta a história exagerada sobre Jesus atravessando sobre o Mar da Galiléia e exorcizando demônios de um homem (dois homens na versão revisada de Mateus) e fazendo-os entrar em cerca de 2.000 porcos os quais, conforme a versão do Rei Jaime, "correram violentamente penhasco abaixo para dentro do mar, e se afogaram no mar."
Além da crueldade para com os animais demonstrada pelo amável e gentil Jesus e sua indiferença pela propriedade dos outros, o que está errado nessa história? Se sua única fonte de informação for a Bíblia do Rei Jaime, você poderá nunca saber. A versão do Rei Jaime diz que esse milagre ocorreu na terra dos gadarenos, enquanto que os manuscritos Gregos mais antigos dizem que aconteceu na terra dos gerasenos. Lucas, que não conhecia nada da geografia Palestina, também passa adiante esse pequeno absurdo. Mas Mateus, que tinha algum conhecimento sobre a Palestina, mudou o nome para gadarenos, em sua versão nova e melhorada, mas isso foi novamente melhorado para gergesenos na versão do Rei Jaime.
A esta altura o leitor deve estar atordoado com todas estas distinções entre gerasenos, gadarenos e gergesenos. Que diferença isso faz? Muita diferença com veremos.
Gerasa, o lugar mencionado nos manuscritos mais antigos de Marcos, está localizada a cerca de 50 km de distância das costas do Mar da Galiléia. Aqueles pobres porcos tiveram que correr uma distância 8 km mais longa que uma maratona para encontrar um lugar para se afogar! Nem mesmo lemingues precisam ir tão longe. Ainda mais se considerarmos que o perfil de um "penhasco" tem que ter no mínimo 45 graus, o que tornaria a elevação de Gerasa pelo menos seis vezes maior que Monte Evereste!
Quando o autor de Mateus leu a versão de Marcos, viu a impossibilidade de Jesus e sua gangue desembarcarem em Gerasa (que por sinal também ficava em outro país, o assim chamado Decápolis). Já que a única cidade na vizinhança do Mar da Galiléia que ele conhecia e que começava com G era Gadara, trocou Gerasa por Gadara. Mas mesmo Gadara dista 8 km da costa, e em um país diferente. Copistas posteriores dos manuscritos Gregos de todos os três evangelhos com porcos afogados (Mateus, Marcos e Lucas) melhoraram Gadara mais tarde para Gergesa, uma região que agora se sabe ter feito parte da costa oriental do Mar da Galiléia. Não é preciso falar mais nada sobre a confiabilidade da tradição bíblica.
Outro exemplo da profunda ignorância de Marcos da geografia Palestina é encontrada na história que ele fabricou sobre Jesus viajando de Tiro, no Mediterrâneo, para o Mar da Galiléia, 48 km por terra. De acordo com Marcos 7:31, Jesus e seus rapazes foram pelo caminho de Sidom, que fica 32 km ao norte de Tiro na costa do Mediterrâneo!! Já que para ir a Sidom e voltar seriam 64 km, isso significa que o mais sábio dos homens andou 112 km quando poderia ter andado apenas 48. É claro que ninguém jamais descobriria isso através da versão do Rei Jaime - que aparentemente ignorou o texto Grego que claramente diz – "Partindo das costas de Tiro e Sidom, ele chegou ao Mar da Galiléia..." Aparentemente os tradutores da versão do Rei Jaime também sabiam geografia. Pelo menos mais que o autor de Marcos!
João
A falta de confiabilidade dos evangelhos é enfatizada quando descobrimos que, com a possível exceção de João, os três primeiros evangelhos não dão indicações internas de quem os escreveu. Será que poderemos colher qualquer coisa de significância do quarto e último evangelho, o evangelho de João? Provavelmente não! Ele é tão fantasmagórico que dificilmente pode ser citado como prova histórica. Neste relato Jesus quase nem chega a ser um homem de carne e osso – exceto para os fins do divino canibalismo, conforme é exigido para a celebração do ritual da "sagrada comunhão".
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus", o evangelho começa. Sem estrelas de Belém, sem embaraços com virgens grávidas, sem indicações nem mesmo de que Jesus tenha usado fraldas: puro espírito do princípio ao fim. Além disso, em sua forma atual, o evangelho de João é o último de todos os evangelhos oficiais.f
O evangelho de João foi compilado por volta de 110 E.C., se seu autor tivesse 10 anos de idade quando da crucificação de Jesus no ano 30 E.C., deveria estar com 80 anos quando escreveu [N.T. 90 anos?]. Não só é improvável que ele tenha vivido tanto tempo, como é perigoso dar muita atenção às "memórias" coloridas, recontadas por um homem dessa idade. Muitos de nós somos muito mais jovens e temos a desagradável experiência de descobrir provas incontestáveis de que o que pensávamos ser claras lembranças de um evento estava espantosamente errado. Também podemos nos perguntar porque uma testemunha ocular de tantos milagres alegados em um evangelho esperaria tanto tempo para escrever sobre eles!
Com maior importância, há provas de que o Evangelho de João, assim como os de Mateus e Lucas, é também um documento composto, incorporando um "Evangelho dos Sinais" anterior, de antigüidade incerta. Outra vez perguntamos, se "João" foi testemunha ocular de Jesus, porque ele teria necessidade de plagiar uma lista de milagres feita por outra pessoa? Nem há qualquer coisa no Evangelho dos Sinais que pudesse nos levar a supor que ele fosse um relato de uma testemunha ocular. Ele poderia com a mesma facilidade estar se referindo aos milagres de Dionísio, transformando água em vinho, ou às curas de Asclépio. (Deus Grego).
A inautenticidade do evangelho de João pareceria ter sido estabelecida acima de qualquer dúvida com a descoberta de que justamente o capítulo em que o autor do livro afirma ter sido "o discípulo a quem Jesus amou" (João 21:20) foi uma adição posterior ao evangelho. Especialistas demonstraram que o evangelho originalmente terminava nos versículos 30-31 do capítulo 20. O capítulo 21 – no qual o versículo 24 afirma que "Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro." - não é obra de uma testemunha ocular. Como muitas outras coisas na Bíblia, é uma fraude. O testemunho não é verdadeiro.
São Saulo e Suas Cartas
Tendo eliminado o V.T e os evangelhos da lista das possíveis "provas" da existência de Jesus, nos restam as assim chamadas epístolas.
Em primeira impressão, poderíamos pensar que essas epístolas – algumas das quais de longe as partes mais velhas do N.T, tendo sido compostas pelo menos 30 anos antes do evangelho mais antigo – nos forneceriam as informações mais confiáveis sobre Jesus. Bem, ficamos só nas impressões. As cartas mais antigas são as de São Saulo – o homem que, após perder a memória, mudou o nome para Paulo. Antes de entrar em detalhes, é preciso deixar bem claro que, antes que nos esqueçamos, o testemunho de São Saulo pode ser ignorado com segurança se o que ele nos diz for verdade, mais exatamente, que nunca conheceu Jesus "em carne e osso", mas o viu apenas numa visão que teve durante o que parece ter sido um ataque epiléptico. Nenhum tribunal aceitaria visões como prova, e nem nós.
O leitor poderia argumentar que, mesmo que as provas de Saulo fossem apenas de ouvir dizer, parte disso poderia ser verdade. Parte disso poderia nos dizer alguns fatos sobre Jesus. Bem, examinemos as provas.
De acordo com a tradição, o trabalho de São Saulo são 13 das cartas no N.T. Infelizmente, os literatos bíblicos e experts em computação trabalharam nessas cartas e concluíram que só se pode demonstrar que quatro delas são do mesmo autor, presumidamente Saulo. g Estas são as cartas conhecidas como Romanos, I e II Coríntios e Gálatas. A essas poderíamos acrescentar uma nota resumida a Filemon, um proprietário de escravos, Filipenses, e I Tessalonicenses. Pode ser demonstrado que as demais epístolas assim denominadas Paulinas foram escritas por autores diferentes e posteriores, e assim podemos jogá-las fora agora mesmo e não nos preocuparmos com elas.
Saulo nos diz em II Coríntios 11:32 que o Rei Aretas dos damascenos tentou prendê-lo devido à sua agitação Cristã. Uma vez que é sabido que Aretas morreu no ano 40 E.C, isso significa que Saulo tornou-se Cristão antes dessa data. Então, o que descobrimos sobre Jesus através de um homem que se tornou Cristão pelo menos de dez anos depois da alegada crucificação? Muito pouco!
Uma vez mais, G. A.Wells, no livro The Historical Evidence for Jesus [pp. 22-23], resume as coisas de forma tão sucinta que eu o transcrevo textualmente:
As... cartas Paulinas..são tão completamente silenciosas a respeito dos eventos que foram mais tarde registrados nos evangelhos como se sugerissem que esses eventos não eram do conhecimento de Paulo que, todavia, não poderia ignorá-los se tivessem realmente ocorrido.
Estas cartas não fazem nenhuma alusão aos pais de Jesus, muito menos ao nascimento através de uma virgem. Nunca se referem a um local de nascimento (por exemplo, chamando Jesus de "de Nazaré" ). Não dão indicação das datas ou locais de sua existência terrena. Não se referem a seu julgamento diante de um oficial Romano, nem a Jerusalém como local de execução. Não mencionam João Batista, nem Judas nem Pedro que negou seu mestre. (Naturalmente elas mencionam Pedro, mas não deixam implícito que ele tenha conhecido Jesus enquanto estava vivo mais que o próprio Paulo o teria conhecido).
Estas cartas também não mencionam qualquer milagre que Jesus supostamente tenha feito, uma omissão particularmente impressionante, uma vez que, de acordo com os evangelhos, ele teria feito tantos...
Outra característica importante das cartas de Paulo é que não é possível extrair delas que Jesus tenha sido um educador ético... em somente uma ocasião ele apela à autoridade de Jesus para apoiar um ensinamento ético, o qual os evangelhos também representam ter sido ensinado por Jesus.
Acontece que o apelo de Saulo à autoridade de Jesus envolve precisamente o erro que encontramos no evangelho de Marcos. Em I Cor. 7:10, Saulo diz que "não eu mas o Senhor, [mando] que a mulher não se aparte do marido ". Isto é, a esposa não deveria pedir o divórcio. Se Jesus realmente tivesse dito o que Saulo lembra, e que Marcos 10:12 afirma que ele disse, seu público pensaria que ele era maluco – como Bhagwan diz – ou talvez tivesse sofrido um golpe na cabeça. É tudo o que temos a dizer a respeito do testemunho de Saulo. Seu Jesus é nada mais do que um magro boato, uma criatura lendária crucificada em sacrifício, uma criatura quase totalmente sem biografia.
"Provas" Extra-bíblicas
Até aqui nos examinamos todas as alegadas provas bíblicas para provar a existência de Jesus como figura histórica. Vimos que elas não tem legitimidade como prova. Agora devemos examinar a última linha de possíveis provas, a idéia que historiadores judeus e pagãos registraram sua existência.
Fontes Judias
Algumas vezes alega-se que escritos judaicos hostis ao Cristianismo provam que os antigos judeus sabiam a respeito de Jesus e que tais escritos provam o caráter histórico Jesus homem. Mas na realidade os escritos judaicos não provam nada disso, como o livro de L. Gordon Rylands Did Jesus Ever Live? argumentou quase setenta anos atrás:
.... todo conhecimento que os Rabinos têm a respeito de Jesus foi obtido através dos evangelhos. Vendo que os Judeus, mesmo na época atual e mais crítica, assumem como fato que a figura de um homem real esteja por trás da narrativa do evangelho, ninguém precisa se surpreender se, no segundo século, os Judeus não questionassem essa suposição. É certo todavia, que alguns realmente questionaram isso. Para Justino, em seu Diálogo com Trypho, representa o Judeu Trypho dizendo, "vocês seguem um boato vazio e fazem um Cristo (salvador) para si próprios." "Se ele nasceu e viveu em algum lugar, ele é inteiramente desconhecido"
Os escritores do Talmude [4º e 5º séculos EC, FRZ] não tinham conhecimento de Jesus. Isso é comprovado pelo fato de que eles o confundiram com dois homens diferentes, nenhum dos quais pode ter sido ele. Evidentemente nenhum outro Jesus com quem eles poderiam identificar o Jesus Evangélico foi conhecido por eles. Conta-se que um desses, Jesus Ben Pandira, conhecido como milagroso, teria sido apedrejado até a morte e então pendurado em uma árvore nas vésperas da Páscoa (dos Judeus) no reinado de Alexandre Janeu (106-79 AC) em Jerusalém. O outro, Jesus Ben Stada, cuja data é incerta, mas que pode ter vivido no primeiro terço do segundo século da era cristã, foi também apedrejado e enforcado na véspera da páscoa, mas em Lydda. Pode haver alguma confusão aqui, mas é certo que os Rabinos não tinham conhecimento de Jesus além daquilo que tinha lido nos evangelhos.11
Embora apologistas Cristãos tenham relacionado numerosos historiadores antigos que alegadamente teriam sido testemunhas da existência de Jesus, os únicos dois citados consistentemente são Josefo, um Fariseu, e Tácito, um pagão. Como Josefo nasceu em 37 E.C., e Tácito nasceu em 55, nenhum dos dois poderia ter sido testemunha ocular de Jesus, que supostamente foi crucificado em 30 E.C.. Mas alguém poderia alegar que esses historiadores, no entanto, tiveram acesso a fontes confiáveis, agora perdidas, as quais registravam a existência e execução do nosso amigo JC. Assim, é desejável que demos uma olhada nessas duas supostas testemunhas.
No caso de Josefo, cujo Antiguidades Judaicas foi escrito em 93 E.C., mais ou menos na mesma época dos evangelhos, nós o encontramos dizendo coisas totalmente impossíveis para um bom Fariseu ter dito:
Acerca desta época viveu Jesus, um homem sábio, se podemos chamá-lo de homem. Porque ele era um homem que operava façanhas surpreendentes e era um educador que as pessoas aceitavam sua verdade com satisfação. Ele conquistou muitos Judeus e muitos Gregos. Ele era o Messias. Quando Pilatos por ouvi-lo acusado por homens do mais alto crédito entre nós, condenou-o a ser crucificado, aqueles que tiveram em primeiro lugar chegado para amá-lo não desistiram de sua afeição por ele. No terceiro dia ele apareceu a eles restaurado à vida, os profetas de Deus tinham profetizado essa e outras incontáveis maravilhas sobre ele. E a tribo de Cristãos, assim chamados em alusão a ele, ainda não desapareceu.12
Nenhum fariseu leal diria que Jesus teria sido o Messias. Que Josefo pudesse informar que Jesus teria voltado a vida "no terceiro dia " e não ser convencido por esta surpreendente informação é além da fé. Pior ainda é o fato de que a história de Jesus é intrusa na narrativa de Josefo e é visível que se trata de uma interpolação, mesmo em uma tradução para o Inglês do texto Grego. Logo após a fantástica passagem citada acima, Josefo prossegue dizendo, "Mais ou menos na mesma época, mais outra calamidade dolorosa pôs os Judeus em desordem". Josefo estava falando anteriormente sobre coisas horríveis que Pilatos havia feito com os Judeus em geral e podemos facilmente entender por que um interpolador teria escolhido este local específico. Mas sua displicência ao não mudar as palavras do texto ao redor deixou uma "sutura literária" (que os retóricos poderiam chamar de aporia) que se destaca como um nariz empolado.
O fato de que Josefo não estava convencido por esta ou por qualquer outra alegação cristã fica claro pela declaração de Orígenes (aprox. 154 a 185 E.C), um dos patriarcas da igreja – que estudava Josefo intensamente – que Josefo não acreditava em Jesus como Messias, isto é, como "Cristo". Além disso, a passagem discutida nunca foi citada por apologistas Cristãos mais recentes, como Clemente de Alexandria (aprox 150 – 215 E.C.), que certamente teria feito uso de uma munição como essa se ativesse.
A primeira pessoa a mencionar essa interpolação obviamente forjada do texto da história de Josefo foi o patriarca da igreja Eusébio, em 324 E.C. É bem provável que o próprio Eusébio tenha sido o falsificador. Em 891, Fócio, em seu Bibliotheca, explicitamente declara que Josefo não fez menção alguma dos milagres e atos de Jesus – indicando que a passagem controvertida estava ausente da sua cópia de Antiguidades Judaicas.13 A questão pode provavelmente ser encerrada com a observação de que no século XVI, de acordo com Rylands,14 um estudioso chamado Vossius tinha um manuscrito de Josefo no qual a passagem não existia.
Como os apologistas se agarram ao mais magro graveto para sustentar seu Jesus histórico, argumentam que a passagem citada acima não é a única menção de Jesus feita por Josefo. No bloco 20, cap. 19, §1 das Antiguidades Judaicas encontram-se as seguintes declarações nos manuscritos que ainda sobrevivem.
Ananus...reuniu os juízes do sinédrio e trouxe diante deles um homem chamado Tiago, o irmão de Jesus, que era chamado Cristo, e outros. Ele os acusou de ter transgredido a lei e os liberou para que fossem apedrejados.
É preciso admitir que esta passagem não se intromete no texto como a outra, citada anteriormente. De fato ela está muito bem integrada na história de Josefo. No entanto, é extremamente provável que ela tenha sido modificada a partir do que quer que a fonte de Josefo possa ter realmente dito (lembrando mais uma vez que Josefo não poderia ter sido uma testemunha ocular). A palavra crucial nesta passagem é o nome Tiago (James, Jacó em Grego e Hebraico). É bem possível que esse nome muito comum estivesse no material original de Josefo. É possível mesmo ter sido uma referência a Tiago, o Justo, uma figura do primeiro século que temos boas razões para acreditar que existiu de verdade. Como parece ter usado o título de "Irmão do Senhor", h poderia ter sido natural relacioná-lo com a figura de Jesus. É bem possível que Josefo tenha se referido na verdade a Tiago, "o Irmão do Senhor," e isto tenha sido alterado pelos copistas Cristãos (lembre-se que, embora Josefo fosse Judeu, esse texto foi preservado somente por Cristãos!) para "Irmão de Jesus "— adicionando então, para complementar, "que era chamado Cristo."
Segundo o clássico cético de Wiliam Benjamin Smith, Ecce Deus,15 há ainda alguns manuscritos de Josefo que contêm as passagens citadas, mas elas estão ausentes em outros manuscritos – mostrando que tais alterações já tinham acontecido antes da época de Orígenes mas não tinham chegado a ter sucesso em suplantar o texto original universalmente.
Autores Pagãos
Antes de considerar o alegado testemunho de autores Pagãos, é válido notar algumas coisas que deveríamos encontrar em suas histórias, caso as histórias bíblicas fossem de fato verdadeiras. Uma passagem de Mateus deveria ser suficiente para apontar o significado do silêncio dos escritores seculares:
Mat 27:45. E, desde a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra, até a hora nona... bradou Jesus com grande voz, e entregou o espírito. 51 E eis que o véu do santuário se rasgou em dois, de alto a baixo; a terra tremeu, as pedras se fenderam; 52 os sepulcros se abriram, e muitos corpos de santos que tinham dormido foram ressuscitados; 53 e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele [exposto por 3 dias?], entraram na cidade santa, e apareceram a muitos.
Não teriam os Gregos e Romanos observado – e registrado – uma escuridão como essa ocorrendo num período do mês que um eclipse solar era impossível? Não teria alguém lembrado – e anotado — o nome de pelo menos um daqueles "santos" que saíram da sepultura e foram vagar pelas ruas da cidade? Se Jesus tivesse feito qualquer coisa de importância, alguém não teria notado? Se não fez nada de importante, como poderia ter estimulado a formação de uma nova religião?
Considerando, agora a suposta prova de Tácito, descobrimos que se afirma que esse historiador Romano teria escrito uma passagem nos Anais em 120 E.C. (bloco 15, cap. 44, contendo uma história incrível de Nero perseguindo os cristãos) dizendo "Então, para acabar com os boatos, Nero substituiu os réus e os puniu com os máximos requintes de crueldade, uma classe de homens, odiados por seus vícios, a quem a multidão intitulava como Cristãos. Cristo, o fundador do nome, tinha sido sujeitado à pena de morte no reino de Tibério, por sentença do procurador Pôncio Pilatos..". G.A. Wells [pág. 16] fala, a respeito dessa passagem:
[Tácito escreveu] numa época em que os próprios cristãos tinham acreditado que Jesus tinha sofrido sob Pilatos. Há três razões para se sustentar que Tácito aqui está simplesmente repetindo o que os cristãos disseram a ele. Primeiro, ele dá a Pilatos o título de procurador [sem dizer procurador de que! FRZ], o que se tornou corrente apenas a partir da segunda metade do primeiro século. Se tivesse consultado arquivos que registravam eventos anteriores, teria certamente encontrado Pilatos, designado pelo seu título correto: prefeito. Em segundo lugar, Tácito não diz o nome de Jesus, o homem executado, mas usa o título Cristo (messias) como se fosse um nome próprio. Mas ele dificilmente teria encontrado nos arquivos uma frase do tipo "o Messias foi executado esta manhã". Em terceiro lugar, hostil ao cristianismo como ele era, certamente estava contente em aceitar dos cristãos seu próprio ponto de vista de que o cristianismo era de origem recente, visto que as autoridades Romanas estavam preparadas para tolerar somente cultos antigos (The Histórical Evidence for Jesus, p.16).
Há mais problemas com a estória de Tácito. Ele mesmo nunca mais mencionou a perseguição de Nero aos cristãos em nenhum dos seus volumosos manuscritos, e nenhum outro autor Pagão sabia qualquer coisa desse sofrimento também. O fato mais significativo, no entanto, é que os antigos apologistas Cristãos não fizeram uso dessa estória em sua propaganda — uma impensável omissão para partidários motivados que eram bem versados nos trabalhos de Tácito. Clemente de Alexandria, que tomou por profissão justamente colecionar estes tipos de citações, ignora qualquer perseguição de Nero, e mesmo Tertuliano, que citou muito Tácito, nada conhecia desta estória. De acordo com Robert Taylor, o autor de outro clássico do pensamento livre, o Diegesis (1834), a passagem não era conhecida antes do século XV, quando Tácito foi publicado pela primeira vez em Veneza por Johannes de Spire. Taylor acreditava que o próprio de Spire tenha sido o falsificador.i
Isso encerra o assunto das provas que pretendem de comprovar que Jesus foi uma figura histórica. Nós não provamos que Jesus não existiu, é claro. Demonstramos apenas que todas as provas que se alegadamente daria respaldo a tal afirmação são inconsistentes. Mas é claro, isto é tudo o que precisamos mostrar. O ônus da prova recai sempre sobre quem declara que alguma coisa existe ou que alguma coisa aconteceu. Não temos nenhuma obrigação de tentar provar uma negativa universal. j
Será argumentado pelos crentes fanáticos que todos meus argumentos "do silêncio " não provam nada e eles irão citar o aforismo "Ausência de provas não é prova de ausência." Mas será que as provas negativas a que me referi são ausência de provas? Pode ser instrutivo considerar como um problema hipotético mas similar pode ser tratado nas ciência físicas.
Imagine que alguém tenha declarado que os EUA tenham feito testes nucleares em uma determinada ilha do Caribe em 1943. Seria a falta de informações de que alguém tenha visto a nuvem em forma de cogumelo na mesma época uma prova de ausência ou ausência de provas? (Lembre-se de que durante os anos de guerra o Caribe esteve sob observação das mais diferentes facções.) Seria necessário ir até a ilha hoje e vasculhar toda a superfície a procurara de contaminações que teria que haver se tivesse havido explosões naquele local? Se de fato fôssemos até lá com contadores Geiger e não encontrássemos traços de contaminação radioativa, seria prova de ausência ou ausência de provas? Neste caso, que superficialmente parece ausência de provas, é na verdade uma prova negativa, e assim legitimamente poderia se constituir como prova de ausência. Será que as provas negativas apresentadas a respeito de Jesus poderiam ser muito menos convincentes?
Seria intelectualmente satisfatório descobrir como era o caráter do Jesus condensado na atmosfera religiosas do primeiro século. Mas os estudiosos estão trabalhando no problema. A publicação de muitos exemplos da assim chamada literatura sábia, junto com materiais da comunidade Essênia em Qumran no Mar Morto e literatura Gnóstica da biblioteca Egípcia Nag Hammadi nos têm dado um quadro muito mais detalhado das psicopatologias comunitárias que infestaram o mundo do Mediterrâneo Oriental na virada da era. Não é irreal esperar que nós, dentro em breve, sejamos capazes de reconstruir com detalhes razoáveis os detalhes pelos quais Jesus veio a ter uma biografia.
Eles devem ter notado
John E. Remsburg, em seu livro clássico, The Christ:A Critical Review and Analysis of the Evidence of His Existence (O Cristo: Uma Revisão Crítica e Análise de Sua Existência) (The Truth Seeker Company, sem data, pgs 24-25), lista os seguintes escritores que viveram durante a época, ou até um século após a época, em que Jesus supostamente teria vivido:
Josefo
Filon de Alexandria
Plínio, o Velho
Arriano
Petrônio
Díon Pruseus
Paterculus
Suetônio
Juvenal
Marcial
Pérsio
Plutarco
Plínio, o Moço
Tácito
Justus de Tiberíades
Apolônio
Quintiliano
Lucanus
Eptectus
Hermógenes Sílio Itálico
Statius
Ptolomeu
Apiano
Flegon
Fedro
Valério Máximo
Luciano
Pausânias
Floro Lúcio
Quinto Cúrcio
Aulo Gélio
Díon Crisóstomo
Columella
Valério Flaco
Dâmis
Favorino
Lísias
Pompônio Mela
Apiano de Alexandria
Teão de Smyrna
Segundo Remsburg, "o que resta dos escritos dos autores mencionados na lista acima é suficiente para compor uma biblioteca. Apesar disso, nessa massa de literatura Pagã e Judia, fora duas passagens falsificadas de um autor judeu e duas passagens discutíveis em trabalhos de autores Romanos, não foi encontrada nenhuma menção a Jesus Cristo. " Nem, podemos acrescentar, nenhum desses autores faz qualquer menção aos Discípulos ou Apóstolos – aumentando o embaraço do silêncio da história concernente à fundação do cristianismo.
Notas
a Às vezes afirma que a "milagrosa" expansão do cristianismo no antigo Império Romano é prova de um Jesus histórico – tal movimento não teria ido tão longe e tão rápido se não tivesse havido uma pessoa real em seu início. No entanto, um argumento similar poderia ser usado no caso anterior da difusão rápida do mitraísmo. Desconheço qualquer apologista Cristão que argumentaria que isto daria apoio à idéia de um Mitra histórico! Voltar
b Uma edição em brochura do livro de Paine, com abundância do notas, está disponível através da American Atheist Press por doze dólares. (Order No. 5575, click here) Voltar
c Apocalipse é uma peça literária pseudônima, caracterizada por imagens simbólicas exageradas, geralmente tratando da expectativa de um cataclismo cósmico iminente, em que as divindades destroem os maus e recompensam os justos e corretos. Escritas apocalípticas abundam em significados ocultos e quebra-cabeças numerológicos. Partes de numerosos apocalipses Judaico-Cristãos além do Livro do Apocalipse foram preservadas, mas só o último (se não considerarmos o livro de Daniel inteiramente apocalíptico) foi aceito pelo cânon cristão – e quase mesmo este não o foi, tendo sido rejeitado por muitos antigos patriarcas da Igreja e Conselhos da Igreja. Voltar
d A teoria oposta, freqüentemente chamada de "Hipótese de Griesbach", de que o autor de Marcos tenha "resumido" os dois evangelhos mais longos, mantendo apenas os detalhes "essenciais", é hoje quase totalmente rejeitada pelos estudiosos da Bíblia. Embora os argumentos para justificar essa rejeição quase universal sejam complexos demais para serem apresentados aqui até mesmo de forma resumida, pode ser observado que a abreviação das histórias de milagres é completamente incompatível com os princípios do desenvolvimento religioso vistos em qualquer parte hoje. As histórias invariavelmente se tornam "melhores" (ou seja, mais longas) com as sucessivas narrações, nunca mais curtas! Voltar
e Há provas convincentes indicando que essas alegadas falas de Jesus foram tiradas de outro documento antigo conhecido como Q (do Alemão Quelle "fonte"). Da mesma forma que o Evangelho de Tomé encontrado em Nag Hammadi no Egito, Q parece por ter sido uma lista de dizeres sábios que, em algum momento, foram atribuídas a Jesus. Sabemos que pelo menos um desses provérbios ("Tocamo-vos flauta, e não dançastes..." Mateus 17:11 [N.T. O versículo correto é Mateus 11:17], Lucas 7:32 ) derivam das Fábulas de Esopo, não de um sábio da Galíleia! Voltar
f Digo "evangelhos oficiais " porque há muitos outros evangelhos conhecidos. Assim que as pessoas começaram a fabricá-los, ficaram como um carro sem freios. Somente mais tarde na história Cristã é que o número voltou a ser limitado a quatro. Voltar
g Já foi demonstrado por diversos acadêmicos que mesmo as cartas que se supõe conterem escritos autênticos de Saulo/Paulo são compostas, como os evangelhos (p. ex., L. Gordon Rylands, A Critical Analysis of the Four Chief Pauline Epistles: Romans, First and Second Corinthians, and Galatians [Uma Análise Crítica das Quatro Principais Epístolas Paulinas: Romanos, I e II Coríntios e Gálatas], Watts & Co., London, 1929). De acordo com essa análise, o centro do material de Paulo nestas cartas é o que pode seria ser definido como produto gnóstico pré-cristão. Esse material é rodeado de material freqüentemente contraditório, adicionado por redatores e interpoladores proto-católicos que desse modo tiveram sucesso em declarar uma autoridade proto-gnóstica popular para a Igreja de Roma. Em todo o caso, os texto Grego dessas cartas está cheio de termos como Archon, Aeon, etc. – termos de jargão populares nas formas mais astrologicamente conscientes do gnosticismo. Pareceria que o Cristo de Paulo é tanto um ser astral como o Cordeiro da Revelação. Como o deus do Apocalipse, o deus de Paulo se comunica por visões, não fisicamente cara a cara. Voltar
h Originalmente, esse deveria ter sido o título usado por um membro de uma fraternidade religiosa associada à adoração de Yahweh, que em Grego era sempre referido como kurios ("Senhor"). Isso foi transportado para o Cristianismo primitivo onde sabemos através de I Cor 9:5 que lá existiu uma classe governante coordenada com apóstolos que era chamada "Irmãos do Senhor". A compreensão equivocada do significado original do título levou à crença de que Jesus tinha irmãos – um erro que pode ser encontrado já no mais antigo dos evangelhos canônicos.
De forma interessante, as passagens embaraçosas nos evangelhos, onde Jesus é rude com a mãe e irmãos, pareceriam derivadas de um período em que uma luta política havia se desenvolvido entre as seitas apostolicamente governadas e aquelas governadas pelos "Irmãos do Senhor", que agora reivindicavam autoridade em virtude de um alegado relacionamento sangüíneo com Jesus – que tinha suplantado Yahweh como "Senhor." A política apostólica dos escritores dos evangelhos não resistiria à tentação de diminuir o Partido dos Irmãos usando a indiferença de Jesus por sua própria família. Se Jesus não tem consideração com sua própria família, o argumento deveria caminhar, porque alguém deveria se importar com seus descendentes? Essa é a única explicação plausível para a presença de passagens como João 2:4 ("Mulher, que tenho eu contigo?") ou Marcos 3:33 ("Quem é minha mãe e meus irmãos!"). Voltar
i Estudiosos do latim freqüentemente questionam a possibilidade da passagem ser falsificada pelo motivo de que o estilo distinto do latim de Tácito permeia perfeitamente a passagem inteira. Mas é importante observar que quanto mais diferente for o estilo, mais facilmente ele pode ser imitado. Além disso há também um lapso na forma normalmente usada por Tácito em outro lugar da passagem discutida. Na descrição dos antigos Cristãos como inimigos "da raça humana" (humani generis), a passagem inverte a ordem de palavras normalmente usada por ele. Em todos outros casos, Tácito usa generis humani. Voltar
j Curiosamente, no presente caso, essa prova pareceria possível. Visto que Jesus é freqüentemente chamado de "Jesus de Nazaré," é interessante saber que a cidade agora chamada Nazaré nunca existiu nos primeiros século anteriores à era Cristã e nem no primeiro século da era Cristã. Foram feitos estudos arqueológicos exaustivos por Franciscanos na tentativa de provar que a caverna que eles possuíam foi uma vez o lar da família de Jesus. Mas na verdade demonstraram que o local tinha sido uma necrópole – uma cidade dos mortos – durante o primeiro século da era Cristã. (Naturalmente, os Franciscanos não concordam!) Sem que existisse nenhuma outra Nazaré além de um cemitério naquele tempo, como poderia ter havido um Jesus de Nazaré? Sem uma cidade de OZ, poderia ter havido um Mágico de OZ?
Referências
1. Ilustradas em Robin Seager, Tiberius, Eyre Methuen, Londres, 1972. Para uma documentação numismática mais detalhada de Tibério, veja também C. H. V. Sutherland, Roman History and Coinage 44 BC-AD 69, Clarendon Press, Oxford, 1987; do mesmo autor, Coinage in Roman Imperial Policy 31 B.C.-A.D. 68, Sanford J. Durst Numismatic Publications, NY, 1978. Voltar
2. Illustradas em Seager, op. cit. Voltar
3. Illustradas em Seager, op. cit. Voltar
4. Examinados em Sutherland, 1987, op. cit. Veja também Victor Ehrenberg e A. H. M. Jones, Documents Illustrating the Reigns of Augustus & Tiberius, 2nd Edition, Clarendon Press, Oxford, 1955. Voltar
5. Veja Inscriptiones Latinæ Selectæ, edidit Hermannus Dessau, reimpresso em 4 vols. por Ares Publishers Inc., Chicago, 1979. Voltar
6. Illustrado em Seager, op. cit. Voltar
7. Veja Acta Divi Augusti, Regia Academia Italica, Roma, 1945. Voltar
8. Em sua Anchor Bible Volume 38, Revelation (Doubleday, Garden City, NJ, 1975), J. Massyngberde Ford propôs que o núcleo do apocalipse era material escrito por seguidores judeus de João Batista. Mesmo se João tivesse sido uma figura histórica (o que é extremamente difícil), isso ainda faria do Livro do Apocalipse essencialmente um apocalipse judeu pré-cristão. Voltar
9. Para mais aspectos astrológicos do Apocalipse, veja Bruce J. Malina, On The Genre And Message Of Revelation: Star Visions and Sky Journeys, Hendrickson, Peabody, MA, 1995. Voltar
10. George A. Wells, The Historical Evidence for Jesus, Prometheus Books, Buffalo, NY, 1982, p. 13. Voltar
11. L. Gordon Rylands, Did Jesus Ever Live?, Watts & Co., Londres, 1929, p. 20. Voltar
12. Esse assim chamado Testimonium Flavianum aparece no bloco 18, cap. 3 §3 de Josefo: Jewish Antiquities Books XVIII-XIX, IX, traduzido por L. H. Feldman, Loeb Classical Library, Harvard University Press, Cambridge, MA, 1981, pp. 48-51. Voltar
13. J. P. Migne, Patrologiae Cursus Completus, Series Græca, Tomus CIII. Fócio Constantinopolitanus Patriarcha, Garnier Fratres, Paris, 1900, Cód. 33, colunas 65-66. Voltar
14. Rylands, op. cit., p. 14. Voltar
15. William Benjamin Smith, Ecce Deus: Studies Of Primitive Christianity, Watts & Co., Londres, 1912, p. 235.