Vou passar umas referências em inglês, se alguém quiser traduzo as partes relevantes, OK? E já peço desculpas ao Tutu porque eu sei que sou enrolado pra caralho pra explicar as coisas.
Tutu escreveu: ↑Qui, 15 Janeiro 2026 - 18:30 pm
Essa árvore está estranha. A árvore mostra germânico mais próximo de latino do que de eslavo.
Latinos tem cabelo preto, céltico é ruivo, germânico é loiro, e eslavo tem cabelo castanho.
Há algumas disputas na resolução do "miolo" desta árvore. Entretanto, elas não têm a ver com genótipo, já que a árvore foi feita apenas em base de dados linguísticos (glotocronologia).
Note que, embora dados genéticos sejam essenciais para entender a história dum idioma, não dá pra correlacionar generalizações como essa com idiomas. Muitas vezes, uma elite invasora impõe seu idioma a uma população local; quando isso acontece, você vê falantes de línguas relacionadas mas que são bem distintos geneticamente. E pra usar esses dados genéticos, você precisa procurar aquela fraçãozinha do "pool" genético que veio dos invasores.
E isso não é coisa nova; a composição genética dos caras que falavam o PIE antigo ("A") e o PIE tardio ("B") já era diferente*¹. E os descendentes deles — falantes de proto-itálico, proto-balto-eslávico, proto-céltico etc. — provavelmente fizeram a mesma coisa, impondo suas línguas sobre as populações locais e misturando-se geneticamente com elas.
Outra coisa. Cor de cabelo varia um monte, mesmo dentro duma mesma população estável. Não dá pra generalizar; tem muito germânico de cabelo preto, latino de cabelo loiro, por aí vai. E o caso dos celtas é ainda mais complicado, já que havia falantes de línguas célticas na Ibéria (celtíbero), Turquia (galaico), França (gaulês), Áustria (nórico)... e mesmo se a gente foca apenas nas ilhas britânicas (irlandês, galês etc. são basicamente o que sobreviveu da expansão do latim e do germânico comum), não é todo mundo ruivinho não.
Até na língua, germânico é o oposto de latino. Tem muitas vogais e sílabas truncadas cheias de consoantes. Eslavo é como germânico, mas com poucas vogais.
Estrutura silábica muda muito fácil, muito rápido, e não é sinal de parentesco ou de ausência de. Vide por exemplo o português: a divergência principal entre dialetos do português é só de uns três séculos atrás, e mesmo assim você já vê dialetos nos dois extremos de estrutura silábica.
Outro exemplo bom é o eslavônico eclesiástico. Todo mundo fala dos encontros consonantais gigantescos do polonês e do russo, mas o eslavônico tem muito pouco encontro consonantal*²:
O que é usado para "decidir" que língua é parente mais próximo de qual é o método comparativo: pega cognatos entre os idiomas, vê-se quais são as correspondências de som entre esses cognatos, e tenta-se traçar a família de forma a minimizar quantas mudanças de som são necessárias para explicar essas correspondências de som.
Vou te dar um exemplo bem porquinho com três línguas modernas:
- Português: dois [doɪ̯s], dez [dɛs], dente [dẽ.te]~[dẽ.tʃi]
- Alemão: zwei [tsʋaɪ̯], zehn [tse:n], Zahn [tsa:n]
- Inglês: two [tʰʉw], ten [tʰɛn], tooth [tʰʉwθ]
Repare nas consoantes iniciais. Tem uma correspondência bem regular entre elas, né? Palavras começando com [d] no português vs. [tʰ] no inglês vs. [ts] no alemão. É só
uma correspondência, mas já seria o suficiente para suspeitar que as três línguas são aparentadas.
Tá, mas o ancestral comum delas usava qual som? [d], [tʰ], ou [ts]? Se você olha pelas línguas por aí, vai ver bastante algumas coisas:
- t, tʰ → ts (africação) é bem comum. Só que ts → tʰ não é. Então, aquele [tʰ] do inglês deve estar mais próximo do que o ancestral comum usava do que o [ts] do alemão.
- d→t→tʰ (fortição) acontece bastantinho em começo de palavra. tʰ→t→d é comum em outro contexto (meio de palavra). Então, aquele [d] do português deve estar mais próximo do que o ancestral comum usava do que o [tʰ] do inglês.
Então, o ancestral comum das três provavelmente usava *d (o asterisco é para mostrar que a gente não atestou diretamente, só deduziu). E daí as três línguas passaram pelas seguintes mudanças:
- Português: deixa o [d] como está, e vai dormir.
- Inglês: fortifica o [d] para [tʰ].
- Alemão: 1) fortifica o [d] para [tʰ], 2) daí africa o [tʰ] para [ts].
Reparou que uma das mutações do alemão é igualzinha à do inglês? É muito mais provável que essa mudança tenha acontecido só uma vez, em algum ancestral comum deles que não seja ancestral do português. Ou seja, que o alemão e o inglês sejam irmãos próximos, e o português é primo distante. Assim, ó:

(Ignore o espanhol, coloquei na imagem antes de simplificar o exemplo)
Aquela árvore lá em cima é isso. Só que não é feita com três palavrinhas modernas, e uma correspondência regular; é feita com trocentas palavras, quanto mais antigas melhor, e com trocentas correspondências regulares.
Deixe-me ver se entendi.
O PIE era um grupo de nômades que viviam no cáucaso.
Não. O "PIE" são dois idiomas:
Um deles (PIE antigo) era falado por gente que vivia no Cáucaso. Esse grupo de pessoas é chamado de CLV (Caucasus Lower Volga, ou "Cáucaso Volga Baixo") pela literatura.
O outro grupo (PIE tardio) era falado por gente que vivia nas estepes. Alguns chamam eles de Yamnaya, por causa da cultura material que deixaram para trás, como os kurgans.
Geneticamente falando, os Yamnaya são descendentes parciais do CLV.
Linguisticamente, o PIE tardio é descendente do PIE antigo.
Então, o que aconteceu foi o seguinte: um bando de CLV invadiu as estepes, conquistou os povos locais, e misturou com eles. Essa mistura são os Yamnaya, que herdaram a língua dos CLV e não dos povos conquistados.
Queria saber como ficaria essa árvore quando há miscigenação ou caso de guerras entre nômades.
Como a árvore é só linguística, não tem esse problema. Não interessa se o cara tem ascendência malinka, caçador-coletor eurasiano, ou chinesa; só importa o que ele fala. A língua ou se extingue, ou continua.
Até onde vi, sempre havia um grupo dominante em vez de um crioulo se formar e se tornar a língua oficial do grupo.
Língua crioula (como o haitiano) só se forma em umas situações bem específicas, não acho que seja o caso aqui.
*1 fonte:
https://hms.harvard.edu/news/ancient-dn ... age-family
*2 a Wikipédia tem uma boa amostra do eslavônico eclesiástico aqui:
https://en.wikipedia.org/wiki/Old_Churc ... ample_text