Qualquer um com um mínimo de competência intelectual e acompanhamento do dia a dia do noticiário político sabe do envolvimento da família Bolsonaro com corrupção. Por exemplo, o caso das rachadinhas não envolveu apenas Flávio Bolsonaro, mas também outros membros da família, como Jair e Carlos. Eu já postei evidências sobre isso no primeiro post deste tópico.
Todavia, isso usualmente não tem sido suficiente para convencer ativistas antipetistas a largarem a família Bolsonaro como arma de combate ao PT. Eles continuam defendendo digitar 22 nas urnas na eleição presidencial, seja apenas no segundo turno ou nos dois turnos. Esse grupo está intoxicado por um grande mito disseminado por parte da mídia antipetista: o de que o problema da família Bolsonaro seria que eles, diferentemente do PT, seriam, no máximo, apenas incompetentes administrativamente e corruptos (em benefício do enriquecimento da própria família), enquanto os petistas seriam defensores do ditatorialismo, além de aliados do STF, da censura, de terroristas e de ditadores sanguinários.
Acontece que o conjunto de defeitos da família Bolsonaro é muito maior e mais grave do que apenas incompetência administrativa e corrupção. Quem não sabe disso está em estado de profunda desinformação. Todos os principais defeitos graves atribuídos ao petismo também existem no bolsonarismo.
Comecemos pelo envolvimento do PT com membros do crime organizado e terroristas. As Farc fizeram parte do Foro de São Paulo (organização criada por Lula), e o PT já chegou a defender que elas não deveriam ser classificadas como organização terrorista. Além disso, houve o infame episódio da visita da chamada “Dama do Tráfico” ao Palácio do Planalto: a mulher de um líder do CV participou de reuniões no Ministério da Justiça do governo petista.
Assim sendo, poderíamos concluir que nada desse tipo teve paralelo no bolsonarismo, certo? Errado. Milícias também são organizações criminosas e grupos terroristas que escravizam populações de determinados territórios. E adivinhem quem tem histórico de envolvimento com milícias e grupos de extermínio? Exatamente.
Em sessão na Câmara dos Deputados, Jair Bolsonaro declarou que o crime de extermínio seria “muito bem-vindo” caso o Estado não adotasse a pena de morte, parabenizando grupos que atuavam na Bahia. No passado, ele também defendeu publicamente a legalização das milícias no Rio de Janeiro, argumentando que elas levariam ordem a áreas onde o Estado era ausente.
Mas não para por aí. O ex-capitão do BOPE Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do “Escritório do Crime” (grupo de extermínio), foi homenageado com a Medalha Tiradentes por Flávio Bolsonaro em 2005, enquanto estava preso acusado de homicídio. Jair Bolsonaro também o elogiou publicamente na tribuna da Câmara na época. Além disso, parentes de milicianos, como a mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega, foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Ah, mas somente o PT defende ditadura, certo? Errado de novo. Basta pesquisar sobre o que aconteceu há alguns anos. Jair Bolsonaro e seus aliados trabalharam para viabilizar um golpe de Estado em 2022. Fizeram tudo de forma articulada por mais de um ano, com divisão de tarefas e tudo. Mesmo depois de dois comandantes das Forças Armadas rejeitarem a proposta, fizeram campanha nas redes para intimidá-los e tentar mudar a decisão deles.
O primeiro escalão da organização era formado por ministros do Planalto e assessores da Presidência. É impossível dissociar Bolsonaro disso. Além disso, houve atos presidenciais de reunião com chefes militares para apresentação e discussão de hipóteses de golpe de Estado travestidas de medidas constitucionais, motivadas pela insatisfação com a derrota nas urnas e com decisões subsequentes da Justiça Eleitoral, como explicou Felipe Moura Brasil aqui:
https://clubeceticismo.com.br/viewtopic ... 954#p42954
Jair Bolsonaro recorreu aos chefes militares com propostas de “estado de sítio” e “estado de defesa” em razão da impossibilidade de reversão eleitoral.
Ah, mas o PT, diferentemente do bolsonarismo, quer censura, já que defende o PL 2630/2020, também conhecido como “PL da Censura”. Certo? Errado de novo. A defesa de medidas censórias também fez parte do bolsonarismo. Vejam algumas manchetes publicadas durante o governo Bolsonaro:
“Justiça censura UOL e manda apagar reportagem sobre os imóveis dos Bolsonaro”;
“Justiça do RJ proíbe Globo de exibir documentos de investigações sobre Flávio Bolsonaro”;
“Ministro pediu para PF investigar comparação de Bolsonaro com ‘pequi roído’”;
“Felipe Neto é enquadrado na Lei de Segurança Nacional por criticar Bolsonaro”;
“Ministro de Bolsonaro censura filme de Danilo Gentili”;
“Campanha de Bolsonaro pede que TSE tire do ar vídeos de Janones”;
“TSE manda Twitter excluir posts de Janones contra Bolsonaro”.
Vejam:
https://clubeceticismo.com.br/viewtopic ... 356#p27356
E quanto à defesa de ditadores sanguinários? O PT já defendeu Fidel Castro e Nicolás Maduro. Nada a ver com o que aconteceu com os Bolsonaro, certo? Esse raciocínio é outra mentira.
Jair Bolsonaro já chamou os ditadores Alfredo Stroessner (um estuprador de crianças) e Augusto Pinochet de estadistas. Também já fez reverência a Carlos Brilhante Ustra, um torturador da ditadura brasileira de 1964-1985. Seu filho, Eduardo Bolsonaro, já posou com uma camisa com os dizeres “Ustra vive”.
Além disso, em um vídeo de uma reunião com ministros realizada em julho de 2022 e tornado público em 2024, Jair Bolsonaro relativizou ou desdenhou da tortura sofrida por Dilma Rousseff ao compará-la à situação de um general cubano condenado à morte que teria urinado nas calças, sugerindo que aquilo seria “tortura de verdade”.
O próprio Jair Bolsonaro já declarou em um programa de TV que era favorável à tortura. E não para por aí. Eis algumas de suas declarações de 1999 sobre o que faria se chegasse ao poder:
“Não há a menor dúvida. Daria golpe no mesmo dia, no mesmo dia. Não funciona!”;
“Fazendo um trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil”;
“Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem”.
E quanto a aliança com o STF autocrata? Só o PT tem, certo? Mais uma vez: errado! Vou colocar aqui dois verbetes do que, em um post, chamei de “Dicionário terminógico dos bolsonaristas”:
“Inquérito Inconstitucional das Fake News”: Inquérito que o bolsonarista ignora ou não sabe que o próprio Jair Bolsonaro sancionou quando esse não atingia bolsonaristas. Como já disse o jornalista Felipe Moura Brasil: “Quando o inquérito das fake news foi aberto, Bolsonaro saiu em defesa do então AGU André Mendonça por ter defendido a abertura. Só se voltou contra o inquérito, também legitimado inicialmente por Augusto Aras, quando ele atingiu bolsonarista” (37). Ademais, os Bolsonaro juram considerar esse inquérito inconstitucional, mas ironicamente melaram a CPI da Lava Toga, que iria investigar os ministros do STF. Mais uma coisa geralmente não levada em conta por bolsonaristas quando abordam o tema.
(…)
“STF”: Suprema Corte brasileira cujo histórico total o bolsonarista não gosta de lembrar, pois foi um membro de lá indicado por Bolsonaro que deu o não voto de minerva que tornou Lula elegível e também porque essa foi aliada dos Bolsonaro para melar a CPI da Lava Toga, que iria investigar os seus ministros. STF, no dicionário do bolsonarista, normalmente é termo usado para descrever só a parte do STF que não foi indicada por Bolsonaro, pois aí teria que incluir coisas como o voto de Kássio Nunes que rejeitou o pedido do Ministério Público para retirada do foro privilegiado do senador Flávio Bolsonaro no julgamento das “rachadinhas” (6); e mesmo dos não indicados pelo Jair, é omitida a parte da personalidade dos ministros do STF que agiram ilegitimamente e favoravelmente a Bolsonaro (42), como a suspensão das investigações do Coaf por Dias Toffoli (que beneficiou Flávio Bolsonaro) e o apoio ao direito de foro privilegiado de Flávio Bolsonaro por Gilmar Mendes (42).
Fonte:
https://clubeceticismo.com.br/viewtopic ... 621#p28621
E como já expus no post anterior, o processo das rachadinhas só não andou por causa da aliança dos Bolsonaro com o STF. Dentro desse contexto, os Bolsonaro pararam de falar mal de Gilmar Mendes e Jair até fez campanha política para um parente do ministro do STF que foi o nome mais influente da instituição nas últimas duas décadas.
(Mais uma nota sobre a Suprema Corte: Podemos dizer também que se o Jair Bolsonaro tivesse conseguido o apoio dos três comandantes das Forças Armadas em 2022 para golpe de Estado que tentou, ele poderia ter apoio incondicional de 100% dos ministros do STF, e não apenas de quase todos; isso certamente teria ido mais longe do que o PT já conseguiu).
Faltou mais alguma coisa? Ah, esqueci de mencionar que a esquerda, em muitos países não desenvolvidos, costuma ser associada a desempenho econômico pífio e à ideia de que seus adversários políticos teriam resultados melhores nesse campo. Mas o governo Jair Bolsonaro teve um crescimento do PIB equivalente a apenas cerca da metade do crescimento do PIB mundial no período em que ele governou como presidente — algo extremamente decepcionante:
https://clubeceticismo.com.br/viewtopic ... FHC#p29404
(Post do tópico “Dados do FMI e IBGE: Brasil no governo Bolsonaro cresceu economicamente menos do que na era FHC e era PT”)
Por fim, há a desgraça de o bolsonarismo ter conseguido ir pessimamente até mesmo na segurança pública, uma de suas bandeiras favoritas. Sabotaram o pacote anticrime de Moro por meio de vários jabutis (Jair Bolsonaro sancionou, por exemplo, a lei do juiz de garantias e a limitação da delação premiada), o que beneficiou o crime organizado.
Além disso, recentemente articularam o PL da Dosimetria (criado para beneficiar os Bolsonaro), que poderá acelerar a soltura de criminosos como homicidas e estupradores.