Dados da economia estão fantasiados?
Pedro Fernando Nery
“Jessé Souza fez comentários antissemitas e justificou defendendo a própria ideia de teorias da conspiração: o mundo seria formado por conspirações e caberia aos intelectuais expô-las. Peguei sua licença para escrever uma coluna inteira com as teorias da conspiração em que acredito, mas fiquei com medo dos processos.
Vamos falar então apenas de teorias conspiratórias na economia. Alguns leitores demonstram grande incômodo com o recorde de desemprego baixo, com notícias de milhões de pessoas saindo da pobreza, com a inflação oficial. Acusam o IBGE de alguma manipulação. Não há conspiração, mas é possível aproximar suas percepções negativas sobre a economia de outros dados.
O desemprego, por exemplo. De fato, foi para 5%, mas há um monte de gente que não entra nessa conta. As pessoas que querem empregos, mas não procuram, ou as que têm empregos, mas trabalham pouco. No passado, isso era chamado de “taxa de desemprego oculto”. O IBGE chama de subutilização da força de trabalho e nos EUA é comum chamá-la de taxa de desemprego real ou verdadeira.
Essa taxa de desemprego real costuma ser mais que o dobro da taxa comum, está em 13% e conta 15 milhões de brasileiros.
E as taxas de pobreza? Estão caindo, mas o próprio IBGE calcula outro dado: as taxas sem os benefícios sociais, que ilustram como a redução da pobreza é “artificial”. Nunca as diferenças entre as taxas com e sem foram tão amplas. A extrema pobreza sem benefícios é quase 3 vezes maior e está no mesmo nível de 2016.
Pode-se dizer também que nossas linhas são baixas, e que a redução dos últimos anos não ocorre se usássemos padrões de vida mais elevados. Entre 21 e 25 a taxa de pobreza divulgada pelo IBGE despencou, mas ela cai bem menos se usássemos a linha de pobreza americana e quase nada na linha europeia. No Brasil, 80% das pessoas vivem na pobreza pelo limite europeu, 60% pelo americano e só 20% pelo que usamos — já fazendo os ajustes para poder de compra.
É como se milhões de pessoas tivessem subido acima das nossas linhas de pobreza apenas para um patamar um pouco acima delas, o que explica porque você desconfia do dado oficial.
Para a inflação, novamente podemos usar dados do próprio IBGE para validar suas impressões. A inflação de serviços ficou 30% maior que a inflação cheia nos últimos anos.
Você sente mais os serviços no custo de vida porque estão aí pagamentos recorrentes como boletos da escola e do condomínio. Serviços são baseados em salários e então não costumam cair depois que sobem, ao contrário de alimentos ou eletrodomésticos, que desinflam. Quanto às minhas teorias da conspiração, o jurídico orientou deixar para o 1º de abril. Bom carnaval!”
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