Cessar-fogo é vitória parcial do regime de Teerã
NA GUERRA - Guga Chacra 8 de abril de 2026
O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã é um passo importante para o fim da guerra, mas há uma série de obstáculos e o conflito pode ser retomado. Os dois lados mantêm posições antagônicas em diferentes pontos que podem levar as negociações ao colapso. Além disso, Israel inicialmente diz aceitar a trégua no Irã, no entanto, o premier Benjamin Netanyahu acrescenta que não incluirá o Líbano.
Vantagem iraniana – O acordo de cessar-fogo pode ser considerado uma vitória estratégica parcial do Irã. Afinal, EUA e Israel não atingiram seu objetivo inicial, que era derrubar o regime iraniano. No fim, a demanda principal de Donald Trump neste momento seria a reabertura do Estreito de Ormuz. Para o Irã, bastava sobreviver e mostrar capacidade de resistência. Ambas aconteceram e, por enquanto, Teerã, embora derrotada militarmente, é vencedora politicamente.
Impacto geopolítico – Basicamente, o que os 40 dias de bombardeios de Israel e dos EUA conseguiram foi a reabertura do Estreito de Ormuz , que estava aberto antes do início do conflito. A diferença é que, a partir de agora, o regime iraniano demonstrou ter controle quase total da passagem do Golfo Pérsico para o Oceano Índico. Sim, armamentos e instalações iranianos foram destruídos, mas a um custo imenso para Israel, EUA e, acima de tudo, para as nações árabes aliadas dos norte-americanos. O impacto geopolítico para os Estados Unidos tende a ser negativo por anos. As relações EUA-Israel também tendem a ficar desgastadas, mas longe de serem rompidas.
Armadilha – Aqui, vou citar a avaliação de dois dos principais analistas da questão iraniana. Começo pelo professor da Universidade de Chicago Robert Pape, um dos maiores teóricos do realismo. Nas últimas semanas, o acadêmico disse que Trump havia criado uma armadilha para ele próprio na qual havia duas alternativas — capitular para o Irã, que seria a menos pior, apesar de péssima; ou escalar o conflito, o que poderia ter efeitos catastróficos.
Maior derrota desde o Vietnã – Ao mencionar os dez pontos iranianos como um primeiro passo, Pape avalia que essa é a maior derrota para os EUA desde o Vietnã. O Irã, segundo o professor de Chicago escreveu nas redes sociais, emerge como um dos grandes centros de poder mundial. Tendo a concordar com a primeira parte, mas acho a segunda um pouco exagerada. Ainda assim, ilustra o fracasso da guerra.
Qual o ponto desta guerra? – O ex-agente de inteligência israelense Danny Citrinowicz, responsável por acompanhar questões iranianas para Israel ao longo de anos e hoje no Atlantic Council, é outro que aponta clara derrota dos EUA e de Benjamin Netanyahu no conflito. “O regime segue no poder, mantém 440 quilos de urânio enriquecido a 60% e capacidade de lançar mísseis balísticos”, afirmou nas redes sociais. Em troca, “a reabertura do Estreito de Ormuz que não estava fechado anteriormente”. “Qual foi o ponto desta guerra?”, finaliza. Ele sempre foi um cético em relação a uma ação militar contra o Irã ao deixar claro que o regime estava sólido no poder.
Os negociadores – O Paquistão agiu de forma pragmática para conseguir o cessar-fogo e agora veremos quais serão os próximos passos das negociações. Importante observarmos quem negociará pelo lado norte-americano e pelo iraniano. J.D. Vance desfruta de mais respeito em Teerã por sempre ter sido contra o conflito. Já Jared Kushner e Steve Witkoff não são considerados confiáveis pelos iranianos. Ao mesmo tempo, precisamos observar se o representante de Teerã será alguém da linha dura.
Taxa para Ormuz – Os EUA provavelmente tentarão concessões iranianas na questão nuclear. Talvez o regime de Teerã seja flexível neste ponto desde que os norte-americanos façam concessões no Estreito de Ormuz, como aceitar o controle iraniano, com taxas de até US$ 2 milhões por embarcação para cruzar o Estreito — o valor seria dividido com Omã.
Front libanês – Netanyahu fará de tudo para sabotar o acordo. O premier foi o grande arquiteto deste conflito e, de acordo com reportagem publicada ontem pelo New York Times, teria convencido Trump de que seria fácil derrubar o regime iraniano. Um fracasso. O líder israelense já deixou claro que, na visão dele, o acordo não inclui a guerra de Israel contra o Hezbollah no Líbano – o Paquistão afirma que a trégua inclui o front libanês.
O maior perdedor – Precisaremos ver nas próximas horas se Trump defende a inclusão do front libanês e também qual será a reação iraniana. Se Israel manter o conflito contra o Hezbollah, há uma chance grande de o front iraniano ser reaberto. Já o Líbano, como venho escrevendo desde o início da guerra, segue como o maior perdedor do conflito. Mas este será tema para outro texto.