Existência de Deus
Enviado: Sex, 23 Janeiro 2026 - 08:41 am
Deus não é um ente-objetivo interno-ao-mundo (empírico, espaço-temporal), então é claro que não vou trazer evidências, muito menos empíricas, uma vez que pedir isso já seria por si só um erro categorial, uma contradição estrutural; contudo, posso esboçar aqui uma "demonstração transcendental", o que significa, uma exploração condicional da dependência conceitual implicada, isto é, do que precisa ser pressuposto para que o que está dado esteja justificado. Dado que, por natureza, não poderemos provar nada disso empiricamente, o que podemos fazer é analisar conceitos para descobrir/explicitar quais são as suas implicações.
Eu não quero partir da crença em Deus. Isso seria sair de largada comprometido, de antemão, com um viés de confirmação. Ao invés, quero primeiro postular o que é que é exigido, conceitualmente, para que o patente faça sentido e, a partir daí, mostrar por qual razão o melhor candidato para esse papel seria Deus. Mas o que é esse "patente" que eu digo estar "dado"? Aquilo que já temos diante de nós com uma autoevidência que se impõe -- experiência, sensibilidade, intencionalidade, temporalidade, etc., entre outras "estruturas existenciais" (no sentido de: esquemas sem os quais nosso existir se torna ininteligível).
Se a mente fosse um mero instrumento contingente de sobrevivência e adaptação, ela não poderia se relacionar com a própria essência da realidade, de modo a efetivamente apreender estruturas ideais que é capaz de formalizar em modelos que nos permitem obter sucesso na física, na matemática, na computação etc. Nós não apenas reconhecemos "padrões úteis" como também operamos com base em "razões", "justificativas", "normatividade" (ex: lógica), etc. Ou seja, nossa inteligibilidade se relaciona com uma idealidade que a razão abstrai do universo, permitindo-nos alcançar tal coisa como "explicações racionais". Essa "objetividade" não seria possível se não fosse orientada por normas que nos transcendem, que nos compelem ao "dever" de um "correto-pensar".
Mas, se, do lado de cá, para a objetividade da ciência (e seu sucesso), é necessária uma normatividade de um reto-pensamento, é preciso, também, do lado de lá, o mundo mesmo seja estruturalmente normativo. Mas será que, ao dizer isso, estaria eu projetando, na existência, características que na verdade estão em nós? Mas pera aí. Nós somos um produto do Ser. Somos enraizados na realidade. Não tem como dizer que uma capacidade nossa seja anômala se somos seres naturais. Então, para que haja nossa intelecção, tem que haver uma inteligibilidade inerente que a viabilize. O que precisa ser verdadeiro sobre o "fundamento último" / "realidade última" para que o inteligir seja possível?
Se o "Fundo do Ser" (realidade última, fundamento último, base-Ground-etc) fosse absolutamente não-mental e não-normativo, a emergência de ambos (mentalidade e normatividade) estaria em contradição contra a própria natureza da natureza. Seriam uma anomalia, um absurdo. Não dá pra explicar isso com puro e simples emergentismo+evolucionismo pois não estamos falando apenas de estruturas "em-terceira-pessoa" formadas de tijolos igualmente "em-terceira-pessoa" (ex: um redemoinho, um "novo" que é em última instância redutível às moléculas que o compõem). Não. No caso da mente (e da inteligibilidade, idealidade, normatividade, experiencialidade, intencionalidade etc.) é toda uma outra dimensão ontológica que entra em cena (first-person). Um Absoluto inerentemente não-experiencial, não-intencional, não-normativo, que não contenha esses atributos formalmente em si, tornaria impossível o surgir/aparecer-mesmo destas coisas.
O que torna possível que haja inteligibilidade, idealidade, normatividade, experiencialidade e intencionalidade? Digo em primeiro lugar, para começar. Não me refiro ao "como" essas coisas vêm-a-emergir (complexificando-se, etc) -- isso seria o "mecanismo", o "how", não o "why". Minha pergunta é sobre o que torna inteligível que essas coisas sequer sejam possíveis. As explicações empíricas (evolucionismo, emergentismo, princípio antrópico etc.) se referem ao funcionamento, não à possibilidade estrutural (que já está lá antes mesmo da sua atualização segundo uma reunião propícia de causas e condições). Sabemos que células materiais, como um embrião, se desenvolvem até tomar uma forma humana. Ok. Isso é o "roteiro causal" interno ao mundo fenomênico. Mas eu não estou perguntando por uma "genealogia empírica", mas sim pela própria condição que torna isso possível (independentemente da sua concretização).
O desenvolvimento embrionário opera já no interior de uma realidade na qual é possível haver tais coisas como "perspectivas". Mesmo que as funções cognitivas sejam o resultado da organização complexa de sistemas materiais, isso é apenas um "como", e não uma "explicação". É uma descrição do que acontece, e só. O embrião-feto é um processo no interior do quadro, e não o próprio quadro (no interior do qual são possíveis coisas como leis, ciência, ética, experiência, intenções, interioridade etc). Se a "base" do Todo é completamente "terceira-pessoa", cega para a existência dos sentidos, normas, experiências, sensações, então as coisas mais certas e importantes que conhecemos (mente, dever, valor, lógica etc.) seriam acidentes totais. Só que um acidente jamais poderia abarcar a totalidade com seu pensamento para decifrar a própria estrutura ideal na qual está inserido, o que fazemos por meio da física etc. Pois há uma pretensão de universalidade, objetividade, normatividade, tal como na matemática e na lógica, que não poderiam vir de "lugar-nenhum".
Meu argumento não prova o teísmo clássico nem o criacionismo nem as religiões reveladas, mas demonstra a necessidade de, pelo menos, um certo platonismo ou aristotelismo, no sentido de haver uma Causa-Estruturante da realidade, que seja a fonte dessa idealidade-universalidade da lógica, da matemática, do pensamento, e, acrescentaria eu, do dever, do valor, etc. E, além disso, essa causa não pode ser puramente formal (objetos abstratos matemáticos), pois há esse caráter "experiencial" da realidade (que conhecemos em primeira-pessoa) e que é irredutível ao nível puramente objetivo (terceira-pessoa). Então, argumento eu, essa Causa tem que ser também, de algum modo, senão uma Mente Cósmica, pelo menos "mind-like" ou orientada-towards-mentalidade. Nesse ponto, penso que Plotino ("O Uno") e o Vedanta ("Brahman") ganham de Platão e Aristóteles, pois aquele absoluto não é só um "Motor Imóvel" (aristotélico) nem só uma "Idealidade Eterna" (platônica), mas um "poder real" capaz de "manifestar" e "revelar-se" experiencialmente. Por todas essas razões, eu considero um certo "agnosticismo teístico" (não necessariamente monoteísta naquele sentido clássico abraâmico) como a posição mais razoável do que o ateísmo e também do que o completo agnosticismo radical (que duvida de tudo e diz não podermos saber nada - pois temos, sim, acesso a certas verdades primordiais, possibilitadas pela própria natureza da mente, da razão, da lógica etc).
Eu não quero partir da crença em Deus. Isso seria sair de largada comprometido, de antemão, com um viés de confirmação. Ao invés, quero primeiro postular o que é que é exigido, conceitualmente, para que o patente faça sentido e, a partir daí, mostrar por qual razão o melhor candidato para esse papel seria Deus. Mas o que é esse "patente" que eu digo estar "dado"? Aquilo que já temos diante de nós com uma autoevidência que se impõe -- experiência, sensibilidade, intencionalidade, temporalidade, etc., entre outras "estruturas existenciais" (no sentido de: esquemas sem os quais nosso existir se torna ininteligível).
Se a mente fosse um mero instrumento contingente de sobrevivência e adaptação, ela não poderia se relacionar com a própria essência da realidade, de modo a efetivamente apreender estruturas ideais que é capaz de formalizar em modelos que nos permitem obter sucesso na física, na matemática, na computação etc. Nós não apenas reconhecemos "padrões úteis" como também operamos com base em "razões", "justificativas", "normatividade" (ex: lógica), etc. Ou seja, nossa inteligibilidade se relaciona com uma idealidade que a razão abstrai do universo, permitindo-nos alcançar tal coisa como "explicações racionais". Essa "objetividade" não seria possível se não fosse orientada por normas que nos transcendem, que nos compelem ao "dever" de um "correto-pensar".
Mas, se, do lado de cá, para a objetividade da ciência (e seu sucesso), é necessária uma normatividade de um reto-pensamento, é preciso, também, do lado de lá, o mundo mesmo seja estruturalmente normativo. Mas será que, ao dizer isso, estaria eu projetando, na existência, características que na verdade estão em nós? Mas pera aí. Nós somos um produto do Ser. Somos enraizados na realidade. Não tem como dizer que uma capacidade nossa seja anômala se somos seres naturais. Então, para que haja nossa intelecção, tem que haver uma inteligibilidade inerente que a viabilize. O que precisa ser verdadeiro sobre o "fundamento último" / "realidade última" para que o inteligir seja possível?
Se o "Fundo do Ser" (realidade última, fundamento último, base-Ground-etc) fosse absolutamente não-mental e não-normativo, a emergência de ambos (mentalidade e normatividade) estaria em contradição contra a própria natureza da natureza. Seriam uma anomalia, um absurdo. Não dá pra explicar isso com puro e simples emergentismo+evolucionismo pois não estamos falando apenas de estruturas "em-terceira-pessoa" formadas de tijolos igualmente "em-terceira-pessoa" (ex: um redemoinho, um "novo" que é em última instância redutível às moléculas que o compõem). Não. No caso da mente (e da inteligibilidade, idealidade, normatividade, experiencialidade, intencionalidade etc.) é toda uma outra dimensão ontológica que entra em cena (first-person). Um Absoluto inerentemente não-experiencial, não-intencional, não-normativo, que não contenha esses atributos formalmente em si, tornaria impossível o surgir/aparecer-mesmo destas coisas.
O que torna possível que haja inteligibilidade, idealidade, normatividade, experiencialidade e intencionalidade? Digo em primeiro lugar, para começar. Não me refiro ao "como" essas coisas vêm-a-emergir (complexificando-se, etc) -- isso seria o "mecanismo", o "how", não o "why". Minha pergunta é sobre o que torna inteligível que essas coisas sequer sejam possíveis. As explicações empíricas (evolucionismo, emergentismo, princípio antrópico etc.) se referem ao funcionamento, não à possibilidade estrutural (que já está lá antes mesmo da sua atualização segundo uma reunião propícia de causas e condições). Sabemos que células materiais, como um embrião, se desenvolvem até tomar uma forma humana. Ok. Isso é o "roteiro causal" interno ao mundo fenomênico. Mas eu não estou perguntando por uma "genealogia empírica", mas sim pela própria condição que torna isso possível (independentemente da sua concretização).
O desenvolvimento embrionário opera já no interior de uma realidade na qual é possível haver tais coisas como "perspectivas". Mesmo que as funções cognitivas sejam o resultado da organização complexa de sistemas materiais, isso é apenas um "como", e não uma "explicação". É uma descrição do que acontece, e só. O embrião-feto é um processo no interior do quadro, e não o próprio quadro (no interior do qual são possíveis coisas como leis, ciência, ética, experiência, intenções, interioridade etc). Se a "base" do Todo é completamente "terceira-pessoa", cega para a existência dos sentidos, normas, experiências, sensações, então as coisas mais certas e importantes que conhecemos (mente, dever, valor, lógica etc.) seriam acidentes totais. Só que um acidente jamais poderia abarcar a totalidade com seu pensamento para decifrar a própria estrutura ideal na qual está inserido, o que fazemos por meio da física etc. Pois há uma pretensão de universalidade, objetividade, normatividade, tal como na matemática e na lógica, que não poderiam vir de "lugar-nenhum".
Meu argumento não prova o teísmo clássico nem o criacionismo nem as religiões reveladas, mas demonstra a necessidade de, pelo menos, um certo platonismo ou aristotelismo, no sentido de haver uma Causa-Estruturante da realidade, que seja a fonte dessa idealidade-universalidade da lógica, da matemática, do pensamento, e, acrescentaria eu, do dever, do valor, etc. E, além disso, essa causa não pode ser puramente formal (objetos abstratos matemáticos), pois há esse caráter "experiencial" da realidade (que conhecemos em primeira-pessoa) e que é irredutível ao nível puramente objetivo (terceira-pessoa). Então, argumento eu, essa Causa tem que ser também, de algum modo, senão uma Mente Cósmica, pelo menos "mind-like" ou orientada-towards-mentalidade. Nesse ponto, penso que Plotino ("O Uno") e o Vedanta ("Brahman") ganham de Platão e Aristóteles, pois aquele absoluto não é só um "Motor Imóvel" (aristotélico) nem só uma "Idealidade Eterna" (platônica), mas um "poder real" capaz de "manifestar" e "revelar-se" experiencialmente. Por todas essas razões, eu considero um certo "agnosticismo teístico" (não necessariamente monoteísta naquele sentido clássico abraâmico) como a posição mais razoável do que o ateísmo e também do que o completo agnosticismo radical (que duvida de tudo e diz não podermos saber nada - pois temos, sim, acesso a certas verdades primordiais, possibilitadas pela própria natureza da mente, da razão, da lógica etc).