Existencia de almas
Enviado: Sáb, 10 Janeiro 2026 - 09:29 am
Num exercício de tentar aprender a organizar as ideias e a argumentar de forma minimamente decente, apresento-vos:
Argumentos contra a existencia de almas
Pressupostos:
1 Uma alma pode ser:
a) Algo de natureza imaterial, ou seja não-física, OU
b) Algo material, porém de uma natureza distinta de tudo o que a ciência conhece.
2 Todos os seres humanos possuem alma.
3 Embora seres humanos sejam mortais, tais almas seriam imortais, porem talvez não indestrutíveis, já
que há quem sustente que divindades poderiam aniquilá-las.
4 A alma de de uma pessoa dirige, num alto nível (num sentido similar quando esse termo é usado em TI),
o comportamento desta pessoa, que é como que um veículo desta alma.
5 A alma também guardaria de alguma forma informações que a identifiquem como sendo a alma de uma pessoa (religiões abraâmicas),
ou de um substrato comum (pessoa) de encarnações distintas de uma mesma alma (espiritismo, budismo, etc), como numa memória
independentemente do veículo desta alma (a "pessoa física") estar ou não ciente disso.
Argumentos:
1. Da impossibilidade de interação entre alma e matéria
Se a alma for de natureza imaterial (premissa 1a), não teria massa, nem carga elétrica, etc.
A alma seria mais fugidia que um neutrino, que pode passar por um planeta inteiro como se fosse ar.
Nessas condições, como seria possível interagir com o que quer que fosse?
Assim não sofreria ação de nenhuma das forças e seria impossível sua interação com a matéria,
negando os pressupostos 4 e 5.
Poderia se imaginar uma interface entre o meio imaterial e o material, como fazem os espíritas
com o perispírito e neoplatônicos com um exército de emanações entre um transcendente absoluto (deus)
e meros mortais de carne-e-osso. Sustento que isto não só não resolve o problema como o multiplica
tornando-o ainda pior, porque agora em lugar de explicar como é possível uma comunicação/transição
imaterial <-> material
passaria a ser necessário explicar n comunicações/transições
imaterial <-> Xi <-> ... <-> Xn <-> material
e poderia-se dizer que cada Xi acima ainda seria mais fugidio que qualquer neutrino, logo como interagem
entre si e no fim com a matéria? Eis ai o problema multiplicado.
2. Da introdução de complexidade desnecessária nos fenômenos onde a alma supostamente participaria
Se a alma for algo ainda corpóreo (portanto material), porém de uma matéria que não conhecemos (premissa 1b),
ainda que não a detectassemos, veriamos os efeitos de suas ações na matéria conhecida, análogo ao que ocorre
na astronomia onde embora os astrônomos não vejam e não saibam o que é a matéria escura, deduziram sua existência
pelos efeitos dela na matéria conhecida.
Ora, não há nenhum fenômeno no corpo humano que não possa ser explicado pelos processos físicos normais.
Não há nada análogo a uma matéria escura no corpo humano, ou melhor, no cérebro.
Do contrário, neurologistas poderiam ter já formulado uma hipótese dessa natureza e não o fizeram, pois não houve necessidade para tanto.
Se não há necessidade de tal explicação, devemos descartá-la como Occam já havia aconselhado:
"as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário, a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão"
Por fim, se almas dirigem o comportamento de seus veículos num alto nível, coisa que neurologistas atribuem
ao cérebro, o que resta fazer deste último? Transformá-lo num mero receptor-transmissor de sinais entre a matéria e
esses outros meios? Parece excessivo para um órgão que, com meros 2% de massa corporal (1.5 Kg num adulto de 70 Kg)
consome 20% da energia do corpo que o abriga.
Além disso, se cérebros se ligam a almas, poderia-se no mínimo especular que qualquer animal com cérebro ou
sistema nervoso também teriam almas.
De novo torna-se necessário invocar o dito de Occam, especialmente a última parte dele:
"...a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão".
Considerando os pressupostos 4 e 5 como refutados pelos argumentos 1 e 2, poderíamos questionar de todo a necessidade
de supor a existência de almas e aplicando a navalha de Occam mais uma vez, descartá-las, tornando 1,2,3 desnecessárias
e sem sentido.
Nota: embora tenha mencionado no início a premissa 1b, o argumento aqui se aplica tambem a 1a.
3. De outras complicações implicadas pela imaterialidade das almas
Se almas são imateriais não precisam estar sujeitas às leis da física.
Assim seria possível, por exemplo, haver várias delas ocupando o mesmo lugar do espaço.
Ora, o que então impediria uma pessoa de ter não apenas 1, mas várias almas?
Isso entraria em clara contradição com tudo o que alegam praticamente todas as religiões que supõem existirem almas,
com a possível exceção da cientologia, que não merece ser levada a sério nem com a melhor boa-vontade do mundo.
Nessas condições o que impediria ora uma alma, ora outra, de assumir o controle de alguém?
Se tal fosse possível, o comportamento das pessoas seria errático e dificilmente reconheceríamos alguém,
dado que sua personalidade, gostos, etc poderiam variar radicalmente em qualquer momento e várias vezes
ao longo da vida.
Isso já acontece, um defensor das almas poderia retrucar, dado que gostos mudam, há fenômenos mediúnicos e etc.
Porem não mudam na escala, intensidade e frequencia que a admissão dessa possibilidade (n_almas <-> uma pessoa)
tornaria possível.
Tal situação aniquilaria qualquer individualidade e seriam todos como o personagem do suspense psicológico
"fragmentado" (Split) ou até mesmo pior.
Invertendo o relacionamento n:1 para 1:n, também poderíamos questionar, da mesma forma, porque 1 alma não poderia
controlar n individuos? Se a admissão do n:1 já basta para operar um caos na individualidade alheia, o quão
pior seria se admitíssemos também o oposto? Lembrem-se que a imaterialidade da alma não é barreira para tanto,
muito pelo contrário.
Esse 1:n até me lembra o Averroísmo.
...e se imaginássemos também um relacionamento m:n ???
Logo, para evitar essas complicações, faz-se necessário explicar que dispositivo garantiria essa relação 1:1 entre
alma a pessoa e proibiria as relações n:1, 1:n e m:n, mais uma vez introduzindo uma complexidade monumental
que não lança nenhuma luz adicional em nenhum nos fenômenos que a ciência já estuda.
Um defensor da existência de almas poderia retrucar que fenômenos como mediunidade, esquizofrenia, etc
seriam provas dessas possibilidades. Não me parece, pois a psicologia pode bem explicar todos esses fenômenos
sem supor existência de almas e seus relacionamentos com o meio material.
Portanto, também aqui não há nenhuma "matéria escura" agindo de forma a preencher qualquer lacuna no entendimento
desses fenômenos. E se supõe uma tal possibilidade, deve-se submetê-la a prova e experimentação, como já é feito
na ciencia.
Não há nenhuma evidência que isso seja feito. Nesse sentido, o que fazem cranks, pseudocientistas, pregadores
e devotos de alguma religião não prova nada porque torna obrigatório que o indivíduo tenha fé no dizer daqueles.
O problema da fé é que estando intimamente ligada a vontade do indivíduo (o querer crer com ardor) ela pode admitir,
ao gosto desse mesmo indivíduo, qualquer coisa que ele (ou alguém que pense por ele) queira: de fadas a deuses que
que espiam o onanismo alheio.
Assim, a credibilidade da fé é zero e consequentemente sua utilidade nas explicações dos fenômenos é igualmente nula.
---------------------
OBS:
A questão que coloquei no trecho acima, sobre a inutilidade da fé (dada sua natureza) para demonstrar e provar o
que quer que seja, acaba se tornando mais uma premissa nessa minha cadeia de raciocínio
Formalizando e elaborando melhor:
A fé é um querer crer, uma afirmação íntima sobre a certeza de algo.
Portanto, está intimamente e indissoluvelmente ligada a vontade da cada individuo.
Logo essa mesma fé pode dar assentimento a qualquer coisa que queira, ao belprazer do individuo que tem fé,
o que inclui coisas flagrantemente impossiveis, contraditórias, absurdas e fantasiosas.
Um defensor da fé retrucaria que disso não segue que a fé não possa dar assentimento a coisas
que sejam verdadeiras.
Justo.
Porem isso não faz dela critério para distinguir ou arbitrar sobre as coisas que são verdadeiras das falsas,
uma vez que pode aceitar tanto umas quanto as outras, e isso vai de encontro ao que se alega aqui:
de que seu poder como dispositivo de prova e demonstração é nulo.
Argumentos contra a existencia de almas
Pressupostos:
1 Uma alma pode ser:
a) Algo de natureza imaterial, ou seja não-física, OU
b) Algo material, porém de uma natureza distinta de tudo o que a ciência conhece.
2 Todos os seres humanos possuem alma.
3 Embora seres humanos sejam mortais, tais almas seriam imortais, porem talvez não indestrutíveis, já
que há quem sustente que divindades poderiam aniquilá-las.
4 A alma de de uma pessoa dirige, num alto nível (num sentido similar quando esse termo é usado em TI),
o comportamento desta pessoa, que é como que um veículo desta alma.
5 A alma também guardaria de alguma forma informações que a identifiquem como sendo a alma de uma pessoa (religiões abraâmicas),
ou de um substrato comum (pessoa) de encarnações distintas de uma mesma alma (espiritismo, budismo, etc), como numa memória
independentemente do veículo desta alma (a "pessoa física") estar ou não ciente disso.
Argumentos:
1. Da impossibilidade de interação entre alma e matéria
Se a alma for de natureza imaterial (premissa 1a), não teria massa, nem carga elétrica, etc.
A alma seria mais fugidia que um neutrino, que pode passar por um planeta inteiro como se fosse ar.
Nessas condições, como seria possível interagir com o que quer que fosse?
Assim não sofreria ação de nenhuma das forças e seria impossível sua interação com a matéria,
negando os pressupostos 4 e 5.
Poderia se imaginar uma interface entre o meio imaterial e o material, como fazem os espíritas
com o perispírito e neoplatônicos com um exército de emanações entre um transcendente absoluto (deus)
e meros mortais de carne-e-osso. Sustento que isto não só não resolve o problema como o multiplica
tornando-o ainda pior, porque agora em lugar de explicar como é possível uma comunicação/transição
imaterial <-> material
passaria a ser necessário explicar n comunicações/transições
imaterial <-> Xi <-> ... <-> Xn <-> material
e poderia-se dizer que cada Xi acima ainda seria mais fugidio que qualquer neutrino, logo como interagem
entre si e no fim com a matéria? Eis ai o problema multiplicado.
2. Da introdução de complexidade desnecessária nos fenômenos onde a alma supostamente participaria
Se a alma for algo ainda corpóreo (portanto material), porém de uma matéria que não conhecemos (premissa 1b),
ainda que não a detectassemos, veriamos os efeitos de suas ações na matéria conhecida, análogo ao que ocorre
na astronomia onde embora os astrônomos não vejam e não saibam o que é a matéria escura, deduziram sua existência
pelos efeitos dela na matéria conhecida.
Ora, não há nenhum fenômeno no corpo humano que não possa ser explicado pelos processos físicos normais.
Não há nada análogo a uma matéria escura no corpo humano, ou melhor, no cérebro.
Do contrário, neurologistas poderiam ter já formulado uma hipótese dessa natureza e não o fizeram, pois não houve necessidade para tanto.
Se não há necessidade de tal explicação, devemos descartá-la como Occam já havia aconselhado:
"as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário, a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão"
Por fim, se almas dirigem o comportamento de seus veículos num alto nível, coisa que neurologistas atribuem
ao cérebro, o que resta fazer deste último? Transformá-lo num mero receptor-transmissor de sinais entre a matéria e
esses outros meios? Parece excessivo para um órgão que, com meros 2% de massa corporal (1.5 Kg num adulto de 70 Kg)
consome 20% da energia do corpo que o abriga.
Além disso, se cérebros se ligam a almas, poderia-se no mínimo especular que qualquer animal com cérebro ou
sistema nervoso também teriam almas.
De novo torna-se necessário invocar o dito de Occam, especialmente a última parte dele:
"...a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão".
Considerando os pressupostos 4 e 5 como refutados pelos argumentos 1 e 2, poderíamos questionar de todo a necessidade
de supor a existência de almas e aplicando a navalha de Occam mais uma vez, descartá-las, tornando 1,2,3 desnecessárias
e sem sentido.
Nota: embora tenha mencionado no início a premissa 1b, o argumento aqui se aplica tambem a 1a.
3. De outras complicações implicadas pela imaterialidade das almas
Se almas são imateriais não precisam estar sujeitas às leis da física.
Assim seria possível, por exemplo, haver várias delas ocupando o mesmo lugar do espaço.
Ora, o que então impediria uma pessoa de ter não apenas 1, mas várias almas?
Isso entraria em clara contradição com tudo o que alegam praticamente todas as religiões que supõem existirem almas,
com a possível exceção da cientologia, que não merece ser levada a sério nem com a melhor boa-vontade do mundo.
Nessas condições o que impediria ora uma alma, ora outra, de assumir o controle de alguém?
Se tal fosse possível, o comportamento das pessoas seria errático e dificilmente reconheceríamos alguém,
dado que sua personalidade, gostos, etc poderiam variar radicalmente em qualquer momento e várias vezes
ao longo da vida.
Isso já acontece, um defensor das almas poderia retrucar, dado que gostos mudam, há fenômenos mediúnicos e etc.
Porem não mudam na escala, intensidade e frequencia que a admissão dessa possibilidade (n_almas <-> uma pessoa)
tornaria possível.
Tal situação aniquilaria qualquer individualidade e seriam todos como o personagem do suspense psicológico
"fragmentado" (Split) ou até mesmo pior.
Invertendo o relacionamento n:1 para 1:n, também poderíamos questionar, da mesma forma, porque 1 alma não poderia
controlar n individuos? Se a admissão do n:1 já basta para operar um caos na individualidade alheia, o quão
pior seria se admitíssemos também o oposto? Lembrem-se que a imaterialidade da alma não é barreira para tanto,
muito pelo contrário.
Esse 1:n até me lembra o Averroísmo.
...e se imaginássemos também um relacionamento m:n ???
Logo, para evitar essas complicações, faz-se necessário explicar que dispositivo garantiria essa relação 1:1 entre
alma a pessoa e proibiria as relações n:1, 1:n e m:n, mais uma vez introduzindo uma complexidade monumental
que não lança nenhuma luz adicional em nenhum nos fenômenos que a ciência já estuda.
Um defensor da existência de almas poderia retrucar que fenômenos como mediunidade, esquizofrenia, etc
seriam provas dessas possibilidades. Não me parece, pois a psicologia pode bem explicar todos esses fenômenos
sem supor existência de almas e seus relacionamentos com o meio material.
Portanto, também aqui não há nenhuma "matéria escura" agindo de forma a preencher qualquer lacuna no entendimento
desses fenômenos. E se supõe uma tal possibilidade, deve-se submetê-la a prova e experimentação, como já é feito
na ciencia.
Não há nenhuma evidência que isso seja feito. Nesse sentido, o que fazem cranks, pseudocientistas, pregadores
e devotos de alguma religião não prova nada porque torna obrigatório que o indivíduo tenha fé no dizer daqueles.
O problema da fé é que estando intimamente ligada a vontade do indivíduo (o querer crer com ardor) ela pode admitir,
ao gosto desse mesmo indivíduo, qualquer coisa que ele (ou alguém que pense por ele) queira: de fadas a deuses que
que espiam o onanismo alheio.
Assim, a credibilidade da fé é zero e consequentemente sua utilidade nas explicações dos fenômenos é igualmente nula.
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OBS:
A questão que coloquei no trecho acima, sobre a inutilidade da fé (dada sua natureza) para demonstrar e provar o
que quer que seja, acaba se tornando mais uma premissa nessa minha cadeia de raciocínio
Formalizando e elaborando melhor:
A fé é um querer crer, uma afirmação íntima sobre a certeza de algo.
Portanto, está intimamente e indissoluvelmente ligada a vontade da cada individuo.
Logo essa mesma fé pode dar assentimento a qualquer coisa que queira, ao belprazer do individuo que tem fé,
o que inclui coisas flagrantemente impossiveis, contraditórias, absurdas e fantasiosas.
Um defensor da fé retrucaria que disso não segue que a fé não possa dar assentimento a coisas
que sejam verdadeiras.
Justo.
Porem isso não faz dela critério para distinguir ou arbitrar sobre as coisas que são verdadeiras das falsas,
uma vez que pode aceitar tanto umas quanto as outras, e isso vai de encontro ao que se alega aqui:
de que seu poder como dispositivo de prova e demonstração é nulo.