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Agnosticismo Teístico vs. ateísmo materialista

Enviado: Dom, 19 Abril 2026 - 16:04 pm
por Humanista
Neste tópico eu provo por quais razões um certo agnosticismo teístico é mais prudente (e consistente) do que o ateísmo materialista.

Para quem acha o teísmo absurdo ou irracional, eu digo que nenhuma alternativa, se analisada até suas últimas consequências, consegue ser menos absurda nem mais racionalista. Um universo materialista, opaco, mecânico, indiferente, que simplesmente existe por si só sem princípio nem fim, e que faz emergir em seu seio criaturas completamente anômalas com relação à sua própria essência (posto terem mentes, sensibilidade, espontaneidade, intencionalidade etc.), inclusive capazes de sentimentos morais e decisões racionais, isso sendo que o fundo mesmo delas, a base delas todas, seria só uma matéria morta e estéril, insensível e irracional, opaca e cega e surda e muda -- olha, isso daí consegue ser mais irracional e absurdo do que qualquer teísmo já proposto.

Se a base é mecânica e cega, automática como um relógio, então faria mais sentido que todos os seus efeitos e produções igualmente assim fossem. Mas os ateus materialistas postulam, como princípio constituinte de tudo - inclusive das vidas e mentes e ações e decisões -, uma matéria morta e estéril que, magicamente, resulta em vida consciente e fértil, senciente e criativa, autônoma e espontânea, viventes com suas próprias intenções, decisões, sentimentos e valores. Mas que são, em última instância, produtos de uma realidade última que não tem absolutamente nada em comum com mentalidade, sensibilidade, sentimentalidade, criatividade, valor, etc!

Sempre que nos deparamos com algum problema ou mistério, perguntamo-nos "por quê?", isto é, buscamos suas condições. Tudo que tem condições foi condicionado por outras coisas das quais precisa para existir. Só que, se esse fosse o caso de absolutamente tudo, então nada jamais poderia passar a existir, uma vez que demandaria condições que ainda não estivessem lá. Isso significa que alguma condição sempre esteve presente. Isto é, algo sempre existiu. Enquanto as demais coisas são "possíveis" (nós mesmos somos acidentais, não somos absolutamente existentes, tanto é que nem sempre existimos), como eu dizia, então o resto (todo o resto) é meramente "possível" (isto é, em algum momento foi "atualizado"), alguma coisa tem que jamais ter sido meramente "possível", mas, ao invés, desde sempre "estar em ação", porque do contrário ela não poderia "começar" (atualizar) nenhuma outra, dado que ela mesma estaria ainda em estado latente ou potencial. Ou seja, esta coisa que sempre existiu, ela necessariamente nunca esteve dormente num estado latente, posto que nenhuma outra coisa poderia tirá-la de lá (dessa latência), então ela tem que ser pura atividade desde sempre, isto é, ser plenamente ativa por si mesma e autoexistente (visto não ter recebido sua existência de nenhum outro).

Até aí o Gorducho concordaria comigo, com a diferença de que ele colocaria, neste "slot" (p/ cumprir tal função) a pura e simples "Natureza". Alguma coisa não precisa de nenhuma outra para existir, sendo assim "incondicionada". Nossa discordância, então, é se esse "Absoluto", esse "Incondicionado", possui subjetividade ou se é cego e morto e mecânico e automático como um relógio. Só que tudo que é mecânico procede mecanicamente justamente por meio de suas determinações. Aliás, é mecânico por ter determinações, as quais determinam sua maneira de proceder. Só que tudo que tem determinações, as tem justamente por ser condicionado. Só que o condicionado não poderia ser autoexistente, pois é condicionado. Então segue-se disso que o incondicionado, aquele absoluto que é autoexistente e dá existência a tudo o mais, não pode ser mecânico nem objetivo. Pois ser um objeto é ser determinado. Todo objeto é objeto justamente por suas determinações. Mas aquilo que tem determinações já é condicionado, não pode ser a condição das condições.

Colocar a natureza na base do Ser, como fundamento da existência inteira, e ao mesmo tempo pensar essa natureza como um mecanismo cego obediente a um determinismo, é imaginar que a condição de todas as condições seja, ela mesma, condicionada. Porque só o condicionado obedece àquilo pelo que foi determinado. Para que o fundamento de tudo fosse uma engrenagem, então o próprio fundamento já estaria sujeito a determinações que obedece. Mas então ele não estaria fundamentando tudo. Para fundamentar tudo, ele não pode ele mesmo obedecer a nada. Tem que agir a partir de si mesmo, de sua própria atividade autoexistente.

Esse primeiro princípio não pode ter causa, porque do contrário ele não poderia ter agido sobre nada, e seria ele mesmo só mais um elo numa cadeia que sequer poderia efetivamente começar uma vez que nada pôde a ela "dar início". Como a realidade se efetivou, então alguma coisa foi capaz de fazer as coisas passarem da possibilidade à atualização, do potencial à ação. Mas, para que as coisas tivessem passado da latência à manifestação, só podem tê-lo feito sob efeito de algo que por sua vez já estivesse pleno, já fosse em si mesmo realizado, em vez de ser latente, porque, se o próprio primeiro princípio fosse latente, nenhum outro poderia fazê-lo passar da latência à plenitude. Daí que este Ser-em-Si tenha de ser plenamente pleno, além de puramente ativo, ação pura. Além disso, sua existência não foi derivada de nenhuma outra, sendo assim auto-existente, ou seja, sua essência é existir: existir não é algo que ele "recebeu" de um outro (tal como é o nosso caso ou de todas as outras coisas "acidentais" e "possíveis"), mas, ao invés, a essência deste ser é sua própria autoexistência, isto é, ele é o próprio Ser em si, subsistente, que subsiste por si só, a plenitude infinita sem nenhuma causa nem latência nem limitação. E, algo assim, para todos os efeitos, é o equivalente (na prática, no papel que cumpre) daquilo que os seres humanos interpretaram como "DEUS". E esse algo tem que ser absolutamente real, é um ente realíssimo, porque foi ele o capaz de fazer a latência do universo passar à realização, isto é, manifestar-se. Sendo assim, aquele Ser é uma realidade absoluta e autossuficiente, primeira e máxima, e que ademais tem de conter em si os poderes de tudo o que veio a manifestar - e sabemos que alguns desses poderes são mentalidade, sensibilidade, criatividade etc. -, posto os experimentarmos em primeira pessoa. Esse Ser Supremo não poderia dar algo que não tem. Mas se ele tem tudo o que temos, então definitivamente não é cego nem insensível nem irracional nem mecânico nem determinístico etc. Ele tem que ser mais pleno do que todos os seus efeitos. Seus efeitos não podem possuir perfeições que nele faltam, porque, se faltassem (elas) no princípio último da realidade, não poderiam aparecer em seres que são meramente acidentais, produzidos (efeito) e não Causa.

Se o fundamento último de toda a realidade fosse mecânico, como poderia ter produzido seres não mecânicos a ponto de formularem o próprio conceito de mecanismo? O próprio ato cognitivo de racionalizar e formular conceitos, aliás, o próprio poder de agir (espontaneamente) não seriam possíveis se a estrutura última por trás de tudo fosse ela mesma não-espontânea. Só que espontaneidade é sinônimo de autonomia, de agência, de intenção. E intencionalidade, agentividade, são poderes de Sujeito, não de objetos. De todo o exposto acima, fica demonstrado que o fundamento último da realidade universal certamente é um Sujeito Absoluto, um Eu, e não uma "coisa", e muito menos uma "natureza" cega e indiferente, determinística, mecânica.