A resposta atabalhoada de Flávio Bolsonaro no SBT, enrolando sobre o motivo da demora em assinar o requerimento de criação da CPI contra Toffoli e Moraes, merece uma análise ponto a ponto, porque contém várias confissões involuntárias.
Assista.
Comento na sequência.


(vídeo)
A premissa da pergunta feita pela apresentadora foi a notícia dada por mim no X, em primeira mão, de que a assinatura do senador foi a 29ª, feita somente após a coleta do mínimo necessário de 27 (como previ aqui na timeline também).


“Flávio Bolsonaro, somente após ter apanhado muito nas redes pela falta de assinatura e apenas depois que o mínimo de 27 foi alcançado, foi o 29o senador a assinar o requerimento de criação da CPI para investigar seu aliado Toffoli e Moraes.
Oposto de um líder.
Só vai arrastado.”
1.
“Eu não demorei pra assinar a CPI.”
O primeiro ímpeto de Flávio, portanto, é negar o fato objetivo: como 28 senadores assinaram antes dele, obviamente ele demorou, o que, mais adiante, acabará admitindo por vias tortuosas.
Então por que ele nega? Porque ele não quer parecer ao eleitorado que tem rabo-preso, mesmo dando novamente todos os sinais de ter, sete anos após haver sabotado a CPI da Lava Toga, quando era investigado por rachadinhas e precisava da boa vontade – de fato, alcançada – de Toffoli e Gilmar Mendes no STF.


2.
“Ele, na verdade… vamo lá.”
O segundo ímpeto é atacar o senador Alessandro Vieira – “Ele, na verdade...” –, mas Flávio logo se interrompe para manifestar primeiro qual é a sua posição oficial sobre o tema, ou seja, para repetir a enrolação ensaiada no ‘media training’ e já usada em entrevista anterior, quando omitiu o nome de Toffoli.
Como quem avisa que lá vem lorota, ele respira fundo e diz: “vamo lá”.


3.
“Eu sou a favor de impeachment de qualquer ministro que descumpra a Lei de Responsabili–responsabilidade, que é a Lei 1079, que enseja os crimes que levam o Senado a fazer o impeachment de ministro do Supremo.”
Em primeiro lugar, Lei de Responsabilidade é a Lei de Responsabilidade Fiscal – LC 101. A Lei 1079 é, na verdade, a Lei dos Crimes de Responsabilidade. Flávio gagueja, erra o nome da lei, seja porque não está tão familiarizado com seu uso como quer aparentar, seja porque está incomodado com a situação.
Em segundo lugar, nada mais inócuo que se declarar, genericamente, a favor de impeachment de qualquer ministro que descumpra a lei. Isso, afinal, é o teor da própria lei, de modo que se declarar contrário seria afrontar a legislação.
Parlamentares interessados em investigar Toffoli vêm apontando a gravidade de suas condutas específicas, expressadas com todas as letras. Se todos só falassem generalidades, como Flávio, ninguém saberia os motivos para CPI.


4.
“Já assinei vários, vou assinar quantos forem necessários, e essa CPI eu assinei.”
Flávio omite que nunca assinou pedido de impeachment de Toffoli, responsável por suspender em 2019 investigações que o atingiam. Recorre novamente, portanto, ao discurso genérico, para encobrir o elemento específico que deixaria seu rabo-preso de fora. Até o pedido de impeachment de Moraes, Flávio só foi assinar em julho de 2025. Antes se dizia contra.
E o sabotador da Lava Toga faz questão de frisar agora, manifestando sua preocupação com a imagem: “essa CPI eu assinei”. A de 2019, não, claro.


5.
“Mas com toda a franqueza, o autor dela, o senador Alessandro Vieira, é um grande hipócrita. Ele faz esse tipo de pedido de CPI sabendo que ela não vai ser instaurada porque ela é ilegal.”
Esse trecho é puro suco de bolsonarismo.
Flávio acusa de hipocrisia o autor do requerimento que ele próprio assinou e ainda acusa a CPI de ser “ilegal”.
Mas quem coloca a própria assinatura em prol da criação de uma ilegalidade? Por que ele fez isso? A resposta é evidente: Flávio só assinou porque temeu o desgaste político de não assinar, não porque endossa a investigação de Toffoli.
Isso mostra, também, uma ou mais das seguintes opções: ou a preocupação dele com a própria imagem está acima do seu zelo pela legalidade, ou Flávio precisa boicotar a CPI, seja em razão de seu pavor de melindrar o camarada Toffoli, seja em razão do ódio de sua família a Alessandro Vieira, cujo discurso combativo em relação ao Centrão do STF condiz com a prática de criticar as condutas específicas dos ministros e de requerer investigações sobre eles, diferentemente dos casos de Flávio, Carlos e Eduardo (aliás, vetado pelo pai de criticar Gilmar).
Hipócrita, aliás, é justamente quem dissimula seus reais sentimentos, intenções ou opiniões, fingindo virtudes ou crenças que não possui para obter vantagens pessoais ou aprovação. É o caso dos valentões de carro de som que seguem sabotando a Lava Toga.


6.
“Você não pode instaurar uma CPI pra investigar crimes comuns de pessoas.”
Se CPI não pudesse investigar crimes comuns, não haveria CPMI do INSS investigando o roubo dos aposentados, nem CPI do Crime Organizado investigando máfias, facções e milícias, incluindo seus tentáculos no poder público, com corrupção e lavagem de dinheiro.
O que a CPI não faz é condenar pessoas, ainda que possa prendê-las por flagrante delito, como nos casos de falso testemunho e desacato.
Seu perfil é investigativo, não condenatório, de modo que ela encaminha conclusões ao Ministério Público para que ele “promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores”, conforme o parágrafo 3º do artigo 58 da Constituição Federal de 1988.


7.
“Então ele faz pra tirar uma onda, ele acelera esse pedido de CPI antes que eu pudesse assinar, porque foi no final de semana, eu fui avisado pela minha assessoria e eu tava preparando um requerimento pra aditar esse requerimento de CPI dele, tanto… e por isso eu não… eu não assinei antes.”
Na prática, Flávio confessa que demorou para assinar, mesmo tendo negado isso no início da fala. Alessandro Vieira, na verdade, apresentou requerimento na tarde de sexta-feira, 6/3, tendo anunciado no X, às 19h26, que havia feito isso.
O pré-candidato à presidência só foi assinar no começo da tarde de segunda-feira, 9/3, após ter recebido uma enormidade de críticas na rede. Foram cerca de 65 horas entre a postagem de Vieira e a atualização da lista com o nome de Flávio, o 29º.
Agora ele alega que estava “preparando um requerimento pra aditar esse requerimento de CPI dele”, o que não havia anunciado em momento algum...
Todos sabem que trabalhar nunca foi o forte dos Bolsonaro, que dirá no fim de semana, ou na manhã de segunda-feira, ainda mais no combate à eventual corrupção do sistema.
Enfrentar o escândalo Master nunca foi prioridade para Flávio.


8.
“Só que quando eu vi que tava… já tinha atingido as assinaturas, eu falei: ‘Eu vou assinar logo, senão daqui a pouco ele vai encerrar’, porque ele fez pra me sacanear.”
Essa é uma confissão tripla:
– que Flávio assinou para evitar um desgaste maior por não ter assinado;
– que ele, como eu queria demonstrar, só assinou quando viu que o requerimento já “tinha atingido” o mínimo necessário de 27 assinaturas;
– e que ele realmente acha – ou finge achar – que o mundo gira em torno dele mesmo.
Em 2019, a então senadora Selma Arruda relatou que Flávio telefonou para ela, aos berros e palavrões, cobrando que ela retirasse assinatura da CPI da Lava Toga e dizendo: “Você quer me f...” Agora ele diz que Vieira “fez pra me sacanear”.
Flávio é quem se atrela voluntariamente a Toffoli (e talvez eu devesse agradecer por confirmar todas as minhas teses).
Não passa pela cabeça dessa criatura que o Brasil tem coisas mais importantes a resolver que mimar príncipe herdeiro?


9.
“Ele correu com as assinaturas exatamente pra dizer que eu não assinei porque eu tenho algum rabo-preso, o que é mentira, e ele sabe disso. Então ele é um… um grande hipócrita...”
Sentiu demais, hein.
Em resumo: mimimi, mimimi, mimimi.
Para quem não viu, Alessandro Vieira ironizou o piti de Flávio Bolsonaro:
“Alguém consegue explicar porque o Flávio Bolsonaro ficou tão nervoso com uma CPI que vai investigar a conduta dos ministros Toffoli e Moraes? Que ele protege os ministros, por covardia ou conveniência, a gente já sabia desde 2019, quando ele foi contra a CPI da Toga e o impeachment, mas porque esse desespero tão grande agora?”