A esquerdalha proíbe que se mude a narrativa de que toda a mestiçagem no Brasil é fruto de estupro.
Não aceita a ideia de que casais de brancos e negros tenham se formado sem violência porque isto esvazia sua causa antirracista.
Mary del Priore comenta ataques por livro sobre mestiçagem: 'É gravíssimo. Meus colegas se queixam disso o tempo todo'
Historiadora foi escoltada na Bienal Internacional do Livro de São Paulo; acadêmicos relatam medo de agressões nas redes: 'Há muito assédio moral'
Por Ruan de Sousa Gabriel — São Paulo 16/09/2026
Os ataques começaram no fim de agosto, quando a historiadora Mary Del Priore anunciou o lançamento de “Histórias das mestiçagens no Brasil”, que ela organizou ao lado de Gian Melo, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), para a editora da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Eram xingamentos (alguns de caráter misógino), “uma torrente de palavrões” e até ameaças de violência física que chegavam pelas redes sociais, relata a autora. As mensagens davam a entender que a obra não deveria ter vindo à luz, que a mestiçagem não se prestaria mais a ser objeto de pesquisas acadêmicas e que os autores estariam protegidos pelo “pacto da branquitude”.
Assustada, Del Priore recorreu à Unesp, que contratou seguranças para escoltá-la durante a sessão de autógrafos na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, encerrada no último domingo (13). Tirando um ou outro olhar torto, o evento ocorreu sem intercorrências. Em carta aberta ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), Del Priore afirmou que, ao contar aos colegas da Academia Brasileira de Letras que estava organizando um livro sobre mestiçagem no Brasil, um deles a parabenizou “pela coragem”. Depois dos ataques ao livro, ela entendeu por quê.
— É gravíssimo: grupos de poder dentro das universidades querem controlar ideologicamente o que pode ser pesquisado e discutido. Meus colegas, em faculdades Brasil afora, se queixam disso o tempo todo. Muitos acadêmicos ficam em silêncio por medo dos alunos e das redes sociais — diz ela, que deixou a docência na Universidade de São Paulo em 2001 e vem se dedicando a escrever livros de História para o grande público, como biografias de José Bonifácio e de Dona Leopoldina, a primeira imperatriz do Brasil. — Me impressionou o silêncio da Universidade a respeito desse episódio de intolerância. Somos historiadores como quaisquer outros, só queremos entender melhor a nossa cultura, a nossa gente. A resposta que tivemos foi de uma violência desproporcional.
Para evitar o simplismo
Em nota, a Fundação Editora Unesp repudiou “qualquer tentativa de silenciamento, especialmente por meio de ameaças” e expressou “seu desagravo e sua solidariedade a Mary Del Priore, reafirmando seu compromisso com a liberdade intelectual, o respeito à pluralidade de perspectivas e o direito de pesquisadores e autores exercerem plenamente seu trabalho”. “A divergência e o debate são elementos indispensáveis à vida intelectual e a uma sociedade democrática. Nenhuma discordância, contudo, pode servir de justificativa para ameaças, intimidações ou qualquer forma de violência dirigida a autores, pesquisadores e demais participantes do debate público”, afirma a editora. Procurada pelo GLOBO, a Bienal do Livro de São Paulo afirmou que não iria comentar o caso.
“História das mestiçagens no Brasil” é uma obra de quase 500 páginas, voltada a leitores especializados, que reúne 17 ensaios de pesquisadores que há décadas se dedicam ao tema. “Sem explicações simplistas”, os ensaios investigam a miscigenação no país, um assunto “complexo”, “marcado por conflitos, trocas e resistências que vão muito além da genética”, informa o texto de divulgação da obra.
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Del Priore acredita que o livro tenha causado incômodo ao afirmar que a mestiçagem não resulta unicamente do estupro sistemático de mulheres escravizadas por seus senhores, mas também de encontros entre pessoas pobres, das mais diversas origens, que formaram “famílias plurais”, preocupadas com a ascensão social e a libertação dos filhos que nasciam no cativeiro.
— É importante deixar claro que nós não celebramos o branqueamento nem o mestiço em detrimento do preto — afirma a autora de “Uma história da velhice no Brasil” (Autêntica). — Só queremos mostrar, através de documentos, que, desde o primeiro censo do Império, em 1872, o pardo já parece como maioria da população brasileira.
Coorganizador do livro, Gian Melo insiste que “ninguém quer recriar o mito da democracia racial” e é preciso distinguir entre a “ideologia da mestiçagem” e a mestiçagem como fenômeno popular. A primeira foi uma ideologia de Estado que realmente visava a embranquecer a população brasileira. A outra é um fenômeno popular indissociável da cultura nacional.
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