A teoria Ateísta do Padre.

Área destinada a discussões sobre História, Sociedade, Comportamento e Filosofia

A teoria Ateísta do Padre.

Emílio
Mensagens: 2
Registrado em: Seg, 20 Abril 2026 - 11:17 am

Mensagem por Emílio »

A Teoria Ateísta do Padre.



— Um Conto —



I



Nos fundos da residência paroquial de Nossa Senhora das Dores, o padre Antônio fechou o breviário com um suspiro que parecia carregar décadas.



Cinquenta e três anos. Trinta deles de batina. E pela primeira vez, sentia-se um estranho dentro da própria pele.



Tudo começara por acaso — ou pelo que ele ainda chamava de acaso, hesitando agora no uso da palavra. Um seminarista recém-chegado deixara sobre a mesa da sala de visitas um livro de capa desbotada: A Origem das Espécies, de Darwin. Antônio pegou-o por curiosidade distraída, como quem folheia uma revista antiga. E não conseguiu mais largar.



Aquilo que sua formação chamara de "mera hipótese materialista" revelou-se diante de seus olhos como um edifício de lógica implacável. Leu uma vez. Leu duas. Passou a encomendar livros — primeiro com discrição, depois com uma fome que o assustava. Feuerbach. Marx. Nietzsche. Um tratado de biologia evolutiva que um médico da cidade lhe emprestou com um sorriso de cumplicidade.



Foi num desses tratados que encontrou a passagem que agora não lhe saía da cabeça.



O que distinguiu o homem dos demais primatas não foi a alma, mas um detalhe anatômico: a posição ereta libertou as mãos, e o polegar opositor permitiu a pinça fina. Com ela vieram as ferramentas. Com as ferramentas, a linguagem escrita. Com a escrita, tudo.



Antônio olhou para as próprias mãos. Para os dedos que há trinta anos levantavam a hóstia na consagração. Os mesmos dedos que amarraram os cadarços dos sapatos naquela manhã, num gesto automático, e ele pensou: um macaco não consegue amarrar um sapato. Nenhum chimpanzé, nenhum gorila, nenhum dos nossos primos mais próximos tem a pinça fina. O avião, o carro, o microscópio, esta casa, esta batina — tudo veio desse detalhe. Desse pequeno milagre mecânico de um osso se opondo a outro.



Ele sentou-se à mesa de trabalho. A luz da tarde entrava pelos vitrôs e pintava manchas coloridas sobre os livros — os novos, de capas sóbrias, ao lado dos antigos, os tomos de teologia que um dia julgara conterem todas as respostas.



O questionamento crescia nele como uma planta silenciosa.



II



Mas não foi apenas a biologia que abalou os alicerces da sua fé. À medida que avançava nas leituras, Antônio começou a se debruçar sobre a história das religiões — e foi ali que o chão verdadeiramente se abriu.



Os livros de história que antes evitava, por considerá-los "mundanos", agora devorava com a mesma fúria. E uma noite, diante de uma pilha de anotações, a conclusão se impôs como um golpe no estômago.



O cristianismo não nascera do divino. Nascera de uma operação política.



Antônio traçou o fio com a ponta dos dedos trêmulos. O Império Romano, no século I, via no judaísmo um problema persistente: um povo que se recusava a dobrar o joelho aos deuses romanos, que mantinha sua lei própria, que resistia à assimilação. A rebelião judaica fervilhava. Era necessário conter aquela força.



E os romanos, mestres na arte de governar, entenderam que um povo não se vence apenas com espadas. Vence-se com narrativas.



Foi assim que o Novo Testamento emergiu — não como revelação, mas como sincretismo. Pegaram o Deus único dos judeus e o fundiram com a mitologia greco-romana. O herói divino que morre e ressuscita, tão comum nos cultos de mistério — Osíris, Dionísio, Mitra —, agora se chamava Jesus. Os doze apóstolos não eram um detalhe fortuito: representavam as doze tribos de Israel, deslocando a identidade judaica para dentro de uma nova estrutura, agora sob domínio romano. Jesus deixava de ser apenas o messias judeu e tornava-se um deus, no modelo greco-romano, acessível a todos — inclusive aos gentios.



O objetivo era claro: combater o judaísmo absorvendo-o, diluindo-o, transformando-o em algo manso, universal, governável.



Antônio passou a noite em claro, relendo trechos dos evangelhos com um olhar novo. Cada passagem, cada símbolo, cada número agora parecia gritar: construção. Artifício. Poder.



E havia mais.



III



Com o passar dos séculos, aquela máquina de guerra ideológica aperfeiçoou-se. O papado, que Antônio um dia venerara como sucessor de Pedro, revelava-se em sua essência como algo muito diferente do que pregava.



Era uma instituição positivista — materialista, ainda que negasse. Não no sentido de negar Deus, mas no sentido de organizar o mundo a partir de regras, hierarquias, leis, contratos. O papado não sobrevivera dois mil anos por inspiração divina; sobrevivera porque aprendera a lógica do poder. Porque entendera que uma instituição que se perpetua não precisa de Deus. Precisa de disciplina. Precisa de território. Precisa de alianças. Precisa de um sistema jurídico próprio, que atravessa séculos e domina mundos e corações com a mesma eficiência com que Roma um dia dominara com legiões.



Antônio leu sobre a doação de Constantino — falsa, mas eficaz por séculos. Leu sobre as bulas papais que dividiam o mundo entre Espanha e Portugal. Leu sobre o papado avinhonense, as guerras entre facções, o banco do Espírito Santo, os Estados Pontifícios. Uma teia de poder tecida ao longo de dois milênios, usando a fé como matéria-prima.



E o instrumento mais eficaz dessa máquina, descobriu Antônio, fora sempre o mais simples: o pão.



Nos primeiros séculos do cristianismo, quando a nova religião disputava espaço com os cultos pagãos, havia um ritual que se repetia em cada comunidade. A missa não era apenas um ato de fé. Ao final da celebração, distribuía-se pão aos fiéis. Roma, a cidade das massas famintas, viu nisso um instrumento de conversão em massa. Vinha primeiro o pão, depois a crença. Vinha primeiro o corpo, depois o espírito. A fome é uma boa conselheira — e o Império, que já distribuía panem et circenses, aprendeu rápido que o pão servia também para doutrinar.



A fórmula era simples: pão no fim da missa, doutrinação no meio, obediência em troca. E assim o cristianismo tomou o Ocidente. Não por milagre. Por logística.



Antônio fechou o livro e ficou em silêncio por muito tempo.



IV



Mas a história, como um rio, não parava ali.



Se o cristianismo fora uma criação romana para conter o judaísmo, o Islã, séculos depois, emergiu de um movimento semelhante — uma reação defensiva dos árabes diante do avanço irresistível do cristianismo. No século VII, o Império Bizantino e a Igreja pressionavam as fronteiras da Arábia. As tribos árabes, até então politeístas, viram-se ameaçadas por aquele gigante que engolia povos e culturas em nome de um único Deus.



A resposta veio com Maomé. O Islã nasceu também de um sincretismo: tomou do judaísmo o monoteísmo absoluto, as leis alimentares, a circuncisão; tomou do cristianismo a ideia de revelação, de livro sagrado, de profecia; e moldou tudo em uma identidade própria, forte o suficiente para resistir à absorção. Era uma blindagem teológica. Uma muralha feita de fé.



E funcionou. O Islã não apenas conteve o avanço cristão como expandiu-se, criando seu próprio império, sua própria lei, sua própria história.



Antônio olhou para o mapa mental que construíra: três grandes religiões monoteístas — judaísmo, cristianismo, islamismo — não como revelações divinas independentes, mas como camadas sucessivas de uma mesma história humana. Cada uma nasceu de um contexto político, cada uma foi uma ferramenta de unificação e domínio, cada uma usou as mesmas estratégias: narrativas sagradas, rituais de pertencimento, e o controle material — o pão, a terra, as leis.



E todas, pensou Antônio, estavam chegando ao fim. Ou deveriam chegar.



V



Antônio guardava suas anotações com o cuidado de quem esconde um segredo perigoso. Não por medo, mas por prudência. Ainda não sabia o que fazer com aquilo que descobrira. As ideias fervilhavam, os cadernos se enchiam, mas ele mantinha tudo trancado na gaveta da escrivaninha, sob chave.



Escrevia à noite, quando a paróquia dormia. Era a única hora em que se sentia verdadeiramente vivo — ou verdadeiramente ele mesmo.



O que não previra era a visita.



Numa tarde de terça-feira, sem aviso prévio, apareceu na paróquia o padre Alberto, da cidade vizinha. Um homem meticuloso, de óculos grossos e fama de ortodoxo. Antônio o recebeu com café e conversa fiada, como mandava a hospitalidade entre colegas de batina. Padre Alberto veio buscar uns documentos, disse, e aproveitou para fazer uma visita de cortesia.



Antônio serviu o café, sentaram-se na sala, falaram do tempo, das dificuldades das paróquias, da safra de milho que prometia ser boa. Padre Alberto bebeu duas xícaras, elogiou o pão de queijo e, quando Antônio se levantou para buscar mais café, ficou sozinho na sala.



Foi o bastante.



Mais tarde, Antônio jamais saberia ao certo se o outro padre levantara-se por curiosidade ou por desconfiança, se abrira a gaveta por acaso ou com propósito. O fato é que, ao voltar com o bule, encontrou padre Alberto de pé junto à escrivaninha, a pasta de couro aberta, um dos cadernos nas mãos.



O rosto do visitante estava pálido.



— O que é isto, Antônio?



A voz saiu rouca. Não era uma pergunta. Era uma acusação.



Antônio sentiu o chão sumir sob os pés. Durante um instante, pensou em mentir, em dizer que eram anotações antigas, exercícios de seminário, qualquer coisa. Mas o olhar de padre Alberto já havia lido o suficiente. A página aberta falava do sincretismo romano, dos doze apóstolos como as doze tribos, do papado como máquina positivista.



— Devolva — disse Antônio, e sua voz saiu mais calma do que se sentia.



Padre Alberto fechou o caderno lentamente. Colocou-o sobre a mesa. Não disse mais nada. Terminou o café em silêncio, despediu-se com um aperto de mãos frio e foi embora.



Antônio ficou parado no meio da sala por um longo tempo, ouvindo o carro se afastar na estrada de terra. Sabia, com a certeza que antecede o desastre, que aquilo não terminaria ali.



VI



Duas semanas depois, chegou a carta do bispado.



Antônio foi chamado a prestar esclarecimentos. O bispo, um homem de modos suaves e convicções duras, recebeu-o com um sorriso que não escondia a gravidade. Sobre a mesa, cópias dos cadernos. Padre Alberto, "por zelo pastoral", enviara os originais à autoridade eclesiástica.



— Explique-se, padre — disse o bispo.



Antônio olhou para as páginas que escrevera. Seu próprio punho. Suas próprias ideias. Não havia como negar.



— É o resultado de meus estudos — respondeu. — Não pretendia que fosse lido por ninguém.



— Mas foi lido. E é grave. Muito grave. O senhor nega a divindade de Cristo? Diz que a Igreja é uma invenção romana? Que o papado é uma instituição materialista? Que o pão distribuído nas missas foi um instrumento de doutrinação?



— Não nego. Explico.



— Explicar já é negar — disse o bispo, e a frase soou como uma sentença antecipada.



Antônio tentou argumentar, mas viu logo que não havia espaço. O bispo não queria um debate; queria uma confissão de erro. E Antônio, depois de trinta anos de obediência, descobriu que não podia mais mentir. Não podia dizer que não pensava o que pensava. Não podia pedir perdão por ter lido, por ter questionado, por ter buscado entender.



— Não retiro nada — disse ao fim.



O bispo suspirou, como quem lida com um filho desobediente.



— Então o caso irá para Roma.



VII



A convocação ao Vaticano veio três meses depois. Antônio viajou sozinho, com uma pequena mala e o coração pesado. Foi recebido nos palácios romanos por um secretário de olhos rápidos que o conduziu em silêncio por corredores frios até a sala onde o aguardavam três cardeais, um dominicano de rosto ascético e um notário que mal ergueu os olhos do papel.



— Padre Antônio — disse o mais velho dos cardeais, um italiano de voz aveludada que escondia um aço. — Reconhece a autoria destes textos?



— Reconheço.



— E mantém o que neles escreveu?



Antônio respirou fundo. Sabia o que estava em jogo. Podia recuar. Podia dizer que eram anotações provisórias, fruto de uma crise passageira, que se arrependia e pedia perdão. Podia beijar o anel de um deles e voltar para o Brasil com a batina limpa.



Mas a honestidade — aquela honestidade que ele agora colocava acima de tudo — não permitia.



— Mantenho — disse.



O interrogatório durou três dias. Antônio explicou cada ideia com a calma de quem já não tem nada a perder. Falou da pinça fina, da evolução, do materialismo histórico. Falou do sincretismo romano, dos doze apóstolos como representação das doze tribos de Israel, de Jesus como fusão com os mitos pagãos. Falou do papado como instituição positivista, que sobreviveu pela disciplina, pelo território, pelas leis. Falou do pão distribuído nas missas primitivas como instrumento de doutrinação. Falou do Islã como reação defensiva ao avanço cristão.



Os cardeais ouviam em silêncio. O dominicano tomava notas com expressão impenetrável.



— O senhor se coloca, então, fora da Igreja — disse o cardeal no terceiro dia.



— Coloco-me dentro da verdade — respondeu Antônio.



A sentença foi lida ali mesmo:



Degradação do estado clerical. Perda de todos os direitos e privilégios do sacerdócio. Proibição de exercer qualquer ministério. Redução ao estado leigo.



Antônio ouviu em silêncio. Quando terminaram, tirou a batina com movimentos lentos, dobrou-a cuidadosamente sobre a cadeira onde passara três dias sentado. Sob a batina, vestia uma roupa comum — preta, como a batina, mas sem o colarinho romano.



— Posso ir? — perguntou.



O cardeal assentiu. Não ofereceu a mão.



VIII



Antônio voltou ao Brasil. O que a Igreja lhe tirara — o direito de celebrar, o título de padre, a comunidade que o acolhia — ela não podia restituir. Mas ele tinha sessenta anos, trinta e cinco de serviço e nada além de um quarto alugado.



Durante meses viveu da caridade de poucos amigos que não se afastaram. Dormiu em sofás, comeu o que lhe davam. As mãos que um dia seguraram o cálice agora carregavam sacolas de supermercado para vizinhos idosos em troca de algum trocado.



Foi então que um advogado aposentado que o conhecera nos tempos de paróquia sugeriu algo que Antônio jamais consideraria.



— Processa a Igreja. Você passou a vida inteira servindo. Não tem direito à aposentadoria?



Antônio hesitou. Parecia-lhe obsceno pedir dinheiro àquela mesma instituição que o expulsara. Mas o advogado insistiu, e a fome é uma boa conselheira.



O processo correu na Justiça do Trabalho. A Igreja argumentou que o padre não era empregado, que sua relação era vocacional, espiritual, não contratual. O advogado de Antônio contra-argumentou com décadas de provas: Antônio trabalhara em paróquias, escolas, hospitais. Cumprira horários, metas, ordens superiores. Não tinha direito à previdência. Não tinha nada.



O juiz, um homem de meia-idade com olheiras profundas, ouviu tudo com atenção. No dia da sentença, fez um longo voto.



"O autor dedicou sua vida inteira à ré. Não há dúvidas quanto à subordinação jurídica, quanto à habitualidade. O que se discute aqui não é a validade da decisão canônica que o afastou do ministério, mas o direito daquele que, após trinta e cinco anos de serviço, vê-se desamparado na velhice. A ré não pode se beneficiar do trabalho de uma vida inteira sem arcar com as consequências de sua própria decisão de romper esse vínculo."



A sentença concedeu a Antônio uma indenização compensatória e um benefício mensal vitalício.



Antônio chorou quando leu a decisão. Não pelo dinheiro. Pelo reconhecimento. Porque alguém, enfim, dissera que trinta e cinco anos de serviço não podiam simplesmente ser apagados.



IX



Com a indenização, Antônio não fez nada do que muitos esperavam. Procurou uma cidade do interior, pequena o bastante para ser barata e grande o bastante para ter vida cultural. Comprou um sobrado antigo com uma sala ampla na frente.



Ali instalou sua livraria.



Chamou-a A Pinça Fina. Ninguém entendia o nome, mas ele não explicava. Nas prateleiras, alinhava livros de ciência, filosofia, história das religiões, biologia evolutiva. No balcão, atendia os poucos clientes com a mesma paciência com que outrora atendia os fiéis na confissão.



E escrevia.



Voltou a escrever contos, como não fazia desde os tempos de seminário. Histórias curtas, límpidas, sobre personagens à margem — um sacristão que perde a fé, uma freira que descobre a paleontologia, um bispo que lê Darwin às escondidas. Escrevia também ensaios, agora mais maduros, em que desenvolvia as ideias que o haviam levado à condenação.



"As religiões", escreveu num desses ensaios, "são um sincretismo de dez mil anos. Camadas sobre camadas de mitos, rituais, narrativas que os povos foram tecendo para explicar o inexplicável — e para governar. O cristianismo não nasceu nos céus; nasceu em Roma, como uma ferramenta de guerra contra o judaísmo. Os doze apóstolos são as doze tribos de Israel. Jesus é Mitra, é Osíris, é Dionísio. O papado é uma instituição positivista, materialista, que aprendeu a durar distribuindo pão e impondo leis. O Islã nasceu da mesma lógica: uma blindagem contra o avanço cristão, um espelho monoteísta que preservou a identidade árabe. Foram necessárias. Foram belas, às vezes. Mas chegaram ao seu limite. A ciência não veio para destruir o sagrado, mas para cumprir o que o sagrado sempre prometeu: a verdade."



Seus textos começaram a circular. Primeiro em blogs, depois em pequenas revistas literárias, depois em cadernos culturais de jornais. Antônio recebia os jornalistas com cortesia, servia café, respondia a tudo com a paciência de quem já não tem nada a perder.



Foi então que a perseguição mudou de lado.



X



A Igreja Católica já o havia condenado, expulso, esquecido. Para Roma, Antônio era um caso encerrado — um padre descarrilhado que seguiu seu caminho para o nada. Mas os evangélicos fundamentalistas não o esqueceram.



Os textos de Antônio chegaram às periferias, às pequenas igrejas de paredão de som, aos cultos televisionados. Fiéis começaram a chegar aos pastores com perguntas incômodas:



— Pastor, se o cristianismo foi uma invenção romana, o que acontece com a nossa fé?

— Se Jesus é igual a Mitra e Osíris, a ressurreição ainda é verdade?

— Se a Bíblia é um texto político, por que obedecemos a ela?

— E essa história do pão nas missas? Era doutrinação mesmo?



Os pastores tentaram responder no início. Tentaram desqualificar o homem: "ele é um herege expulso, um amargurado, um homem sem Deus". Mas as perguntas não sumiam. E Antônio continuava escrevendo.



Foi quando uma de suas frases, repetida em entrevistas e ensaios, tornou-se um estopim:



"Deus não existe. Mas o diabo, sim. E vive em todas as igrejas."



Para os pastores, aquilo era a prova definitiva. Não se tratava mais de um erro teológico. Tratava-se de blasfêmia pura. De possessão. De anticristo.



As pregações contra ele começaram. Nos cultos de domingo, nos programas de rádio, nas redes sociais, os pastores chamavam Antônio de enviado de Satanás, de lobo em pele de cordeiro, de instrumento do maligno para destruir as famílias e desviar os verdadeiros cristãos.



— Ele mora na livraria A Pinça Fina — diziam. — O nome já é uma blasfêmia. A pinça fina é a mão do homem, diz ele. Ele troca Deus pela mão do homem.



Os fiéis, fanatizados, obedeceram. Começaram a escrever pichações no muro da livraria: "AQUI MORA O ANTICRISTO". "FORA, HEREGE". "VOLTA PARA O INFERNO". "DEUS É AMOR, MAS PARA VOCÊ É FOGO".



Na rua, Antônio passou a ser xingado. Cospem perto dele quando passa. Alguns jogam pedras. A polícia foi chamada algumas vezes, mas os agressores se dispersavam e voltavam no dia seguinte, como um enxame que não pode ser exterminado.



Antônio, que enfrentara cardeais em Roma, sentiu um medo que não conhecia. Não era o medo da condenação teológica. Era o medo da multidão. Do ódio anônimo. Da violência que podia vir a qualquer momento, de qualquer esquina.



Ele passou a sair menos. Fechava a livraria mais cedo. As cortinas ficavam sempre cerradas. À noite, sentava-se no escuro e ouvia os carros passando, imaginando se algum deles ia parar na porta.



XI



As ameaças se intensificaram. Bilhetes anônimos foram empurrados por baixo da porta. Uma vez, encontraram um animal morto na soleira. Antônio pensou em mudar para uma cidade grande, onde poderia se misturar à multidão, onde ninguém saberia quem ele era. Já havia até pesquisado imóveis em São Paulo.



Mas não deu tempo.



Era um domingo. Antônio acordara cedo, como sempre. Tomou café sozinho, leu alguns trechos de um livro novo que chegara pelo correio — uma biografia de Galileu — e vestiu uma camisa limpa. A livraria abria ao meio-dia, mas ele gostava de chegar antes para organizar as prateleiras e limpar a calçada.



Naquela manhã, a calçada estava especialmente suja. Durante a noite, haviam pichado o muro novamente. Dessa vez, as palavras eram maiores, mais raivosas: "ANTICRISTO, SEU LUGAR É NO INFERNO". "AQUI O DEMÔNIO ESCREVE". "MORRA, HEREGE".



Antônio pegou o balde com água e sabão, uma escova de cerdas duras, e começou a esfregar. O sol das dez horas já estava forte. Suava em silêncio, com o movimento paciente de quem já limpou aquelas mesmas palavras muitas vezes antes.



Não ouviu o carro se aproximando.



Não viu o braço estendido pela janela.



Ouviu apenas os estampidos. Três. Secos. Rápidos.



O primeiro tiro pegou-o no peito, à esquerda. O segundo, no abdômen. O terceiro passou raspando, cravando-se na parede da livraria, bem no meio da palavra "ANTICRISTO".



Antônio caiu de joelhos primeiro. Depois tombou de lado, o rosto contra o meio-fio. O balde de água suja tombou com ele, e a água escura espalhou-se pela calçada, misturando-se ao sangue que brotava rápido demais.



Ele não sentiu dor. Apenas um frio súbito, um formigamento que subia das mãos — aquelas mãos que um dia levantaram a hóstia, que amarraram sapatos, que escreveram páginas e páginas contra o deus que não existia e o diabo que, sim, habitava as igrejas.



O pensamento que passou por sua cabeça nos últimos segundos foi simples: Não terminei o último ensaio.



E depois nada.



O carro já havia sumido na esquina quando o primeiro vizinho apareceu na porta. Uma mulher gritou. Alguém chamou a ambulância. Mas não havia o que fazer. Os tiros acertaram órgãos vitais. A morte foi rápida.



Rápida demais para um homem que passara a vida inteira pensando devagar.



XII



A notícia correu o país. Um ex-padre, escritor, livreiro, morto a tiros em frente à própria livraria. Os jornais chamaram de "execução". A polícia abriu inquérito. Ninguém foi preso. As testemunhas diziam ter visto um carro escuro, mas não lembravam da placa, não lembravam do rosto do motorista, não lembravam de nada que pudesse levar a alguém.



Os pastores fundamentalistas, em seus púlpitos, não comemoraram abertamente. Disseram apenas que "Deus não se deixa escarnecer". Disseram que "a justiça divina é perfeita". Disseram que "o fim do herege era este".



Alguns fiéis mais exaltados chegaram a dizer que "ele pediu por isso". Que "quem semeia vento colhe tempestade". Que "a mão de Deus é longa".



A livraria A Pinça Fina ficou fechada por semanas. Depois, os poucos amigos de Antônio — o advogado aposentado, alguns escritores que admiravam seu trabalho, uma professora universitária que usava seus ensaios em sala de aula — tentaram mantê-la aberta. Mas sem Antônio no balcão, a livraria perdeu a alma. Os livros continuaram nas prateleiras, mas ninguém vinha comprá-los.



No fim, o imóvel foi vendido. Os livros foram doados para uma biblioteca pública. Os manuscritos inéditos — inclusive o ensaio que Antônio não terminara — desapareceram. Alguém disse que a polícia os apreendeu como parte da investigação. Alguém disse que os pastores os queimaram. Alguém disse que o advogado os guardou em uma caixa, em algum depósito esquecido.



A verdade é que ninguém nunca mais os viu.



XIII



A obra de Antônio, interrompida pela violência, não continuou.



Seus livros deixaram de ser impressos. Seus ensaios saíram do ar nos blogs que os hospedavam. Seu nome foi sendo esquecido, lentamente, como areia que escorre entre os dedos.



Os pastores que pregavam contra ele continuaram pregando. As igrejas continuaram cheias. Os dízimos continuaram caindo nos cofres. Os pobres coitados continuaram pobres e coitados, trocando o pouco que tinham pela promessa de um céu que nunca chegava.



O carro escuro nunca foi encontrado.



E Antônio, que um dia quis substituir a fé pelo conhecimento, que um dia acreditou que a pinça fina era o verdadeiro milagre, que um dia enfrentou cardeais e escreveu páginas e páginas contra o sincretismo romano e o papado positivista e o pão da doutrinação — Antônio ficou enterrado num pequeno cemitério municipal, sob uma cruz que ele não pedira, com uma lápide que dizia apenas: Padre Antônio. Descanse em paz.



Ele não descansava. Não podia.



Mas isso, pensaram os que o mataram, era problema dele.



Houve, sim, uma vitória das trevas.



Não porque o diabo existisse — Antônio estava certo, até ali. Deus não existe. O diabo, também não. Mas há algo pior que o diabo: a ignorância armada, a fé sem questionamento, o ódio que se veste de virtude. E isso, sim, venceu.



A livraria fechou. Os livros foram doados. O nome de Antônio virou uma nota de rodapé em algum processo judicial arquivado. As crianças da cidade onde ele morreu continuaram amarrando os sapatos com a pinça fina, sem saber que um homem, uma vez, chamou aquele gesto de milagre.



E as igrejas continuaram distribuindo o seu próprio pão — não mais pão de verdade, mas promessas. E os fiéis continuaram comendo.



Lá fora, a tarde caía como todas as tardes, sem pedir permissão a ninguém.



FIM

Re: A teoria Ateísta do Padre.

Avatar do usuário
Fernando Silva
Conselheiro
Mensagens: 7817
Registrado em: Ter, 11 Fevereiro 2020 - 08:20 am

Mensagem por Fernando Silva »

"A Razão deveria ser destruída em todos os cristãos. Ela é o maior inimigo
da Fé. Quem quiser ser um cristão deve arrancar os olhos de sua Razão"
(Martinho Lutero)

Re: A teoria Ateísta do Padre.

Avatar do usuário
Gorducho
Mensagens: 1108
Registrado em: Sex, 20 Março 2020 - 08:55 am

Mensagem por Gorducho »

Não porque o diabo existisse — Antônio estava certo, até ali. Deus não existe. O diabo, também não.
:naughty:
Concordo com o que se não me engano foi a Srª Brunhilde Pomsel quem disse:
Das Böse gibt es. Den Teufel gibt es. Gott gibt es nicht, aber den Teufel gibt es.

Re: A teoria Ateísta do Padre.

Emílio
Mensagens: 2
Registrado em: Seg, 20 Abril 2026 - 11:17 am

Mensagem por Emílio »

Silas chupa ovelhas Malafaia não é o próprio diabo?
Responder