Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Área destinada à discussão sobre Ciência e os avanços científicos e tecnológicos da humanidade.

Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Huxley
Mensagens: 334
Registrado em: Sáb, 07 07America/Sao_Paulo Março 07America/Sao_Paulo 2020 - 20:48 pm

Mensagem por Huxley »

A política de coronavírus do Reino Unido pode parecer científica. Não é

Dominic Cummings adora teorizar sobre a complexidade, mas ele está entendendo tudo errado

Quando, juntamente com o cientista de sistemas aplicados Dr Joe Norman, nós reagimos primeiramente ao coronavírus em 25 de janeiro, com a publicação de uma nota pedindo cautela acadêmica, o vírus tinha supostamente infectado menos de 2.000 pessoas no mundo e menos de 60 pessoas morreram. Esse número não precisa ter sido tão alto.

No momento da redação deste artigo, os números são 351.000 e 15.000, respectivamente. Nossa pesquisa não usou nenhum modelo complicado com um grande número de variáveis, assim como não mais que alguém que vê uma avalanche indo em sua direção exige modelos estatísticos complicados para ver se ele precisa sair do caminho.

Pedimos um exercício simples do princípio da precaução em um domínio em que ele importava: sistemas complexos interconectados têm alguns atributos que permitem que algumas coisas fujam do controle, gerando resultados extremos. Adote medidas robustas que seriam, na época, de pequeno custo: restringir a mobilidade. Imediatamente. Mais tarde, invocamos um rápido investimento em preparação: exames, capacidade hospitalar, meios para tratar pacientes. Apenas no caso, você sabe. As coisas podem acontecer.

O erro no Reino Unido está em dois níveis. Modelagem e formulação de políticas.

Primeiro, no nível da modelagem, o governo confiou em todos os estágios em modelos epidemiológicos que foram projetados para nos mostrar aproximadamente o que acontece quando um conjunto pré-selecionado de ações é realizado, e não o que devemos fazer acontecer e como.

Os modeladores usam hipóteses / suposições, que depois alimentam modelos, e usam para tirar conclusões e fazer recomendações de políticas. Criticamente, eles não produzem uma taxa de erro. E se essas suposições estiverem erradas? Eles foram testados? A resposta é frequentemente não. Para trabalhos acadêmicos, isso é bom. Teorias defeituosas podem provocar discussões. O gerenciamento de riscos - como a sabedoria - requer robustez nos modelos.

Mas se basearmos nossos planos de resposta a pandemia em modelos acadêmicos defeituosos, as pessoas morrem. E elas se vão.

Foi o caso da desastrosa tese de "imunidade de grupo" (herd immunity). A idéia por trás da imunidade de grupo era que o surto pararia se um número suficiente de pessoas adoecesse e ganhasse imunidade. Uma vez que uma massa crítica de jovens ganhasse imunidade, disseram os modeladores epidemiológicos, as populações vulneráveis ​​(idosos e doentes) seriam protegidas. Obviamente, essa idéia nada mais era do que uma versão mais sofisticada da abordagem "simplesmente não faça nada".

Indivíduos e cientistas de todo o mundo apontaram imediatamente as falhas óbvias: não há como garantir que apenas os jovens sejam infectados; você precisa de 60 a 70% da população para ser infectado e se recuperar para ter uma chance de imunidade de grupo, e não existem muitas pessoas jovens e saudáveis ​​no Reino Unido ou em qualquer outro lugar. Além disso, muitos jovens têm casos graves da doença, sobrecarregando os sistemas de saúde e um número não tão pequeno deles morre. Não é um almoço grátis.

Isso não inclui mesmo a possibilidade, já suspeitada em alguns casos, de recorrência da doença . A imunidade pode nem ser confiável para esse vírus.

Pior, não levou em consideração que a duração da hospitalização pode ser mais longa do que eles pensam, ou que pode haver uma escassez de leitos hospitalares .

Segundo, mas mais grave, é a formulação de políticas. Parece-se estar apaixonado por "cientificismo" - coisas que têm os atributos cosméticos da ciência, mas sem seu rigor. Isso se manifesta no "grupo do empurrãozinho" (nudge group) que se envolve em experiências com cidadãos do Reino Unido ou na aplicação de métodos da economia comportamental que não funcionam fora da universidade - mas apadrinha os cidadãos como um insulto à sabedoria ancestral e ao aparato de percepção de risco. A ciência social está em uma "crise de replicação", na qual menos da metade dos resultados é replicada (exatamente nas mesmas condições), menos de um décimo pode ser levado a sério e menos de um centésimo é traduzido para o mundo real.

Portanto, o que é chamado de métodos "baseados em evidências" têm um histórico péssimo e praticamente livre de evidências. Esse cientificismo também se manifesta no amor de complexidade e sistemas complexos (nossa especialidade) pelo conselheiro-chefe de Boris Johnson, Dominic Cummings, que ele parece aplicar incorretamente. E deixar um segmento da população morrer pelo bem da economia é uma dicotomia falsa - além da repugnância moral da ideia.

Como dissemos, quando se lida com profunda incerteza, tanto a governança quanto a precaução exigem que se proteja do pior. Embora a assunção de riscos seja um negócio que é deixado para os indivíduos, a segurança coletiva e o risco sistêmico são os negócios do estado. Falhar nesse mandato de prudência, jogando com a vida dos cidadãos, é um erro profissional que se estende além do erro acadêmico; é uma violação da ética do governo.

A política óbvia que resta agora é um bloqueio (lockdown), com testes hiperativos e rastreamento de contatos: siga as evidências da China e da Coréia do Sul em vez de milhares de códigos de computador propensos a erros. Portanto, perdemos semanas, e aqueles que se preocupam com uma ameaça multiplicativa.

• Nassim Nicholas Taleb é um ilustre professor de engenharia de risco na Tandon School of Engineering da Universidade de Nova York e autor de The Black Swan. Yaneer Bar-Yam é presidente do New England Complex System Institute

Fonte: https://www.theguardian.com/commentisfr ... c-cummings (artigo traduzido do inglês para o português)
Editado pela última vez por Huxley em Dom, 29 29America/Sao_Paulo Março 29America/Sao_Paulo 2020 - 23:53 pm, em um total de 5 vezes.

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Huxley
Mensagens: 334
Registrado em: Sáb, 07 07America/Sao_Paulo Março 07America/Sao_Paulo 2020 - 20:48 pm

Mensagem por Huxley »

Hoje e amanhã
QUINTA-FEIRA, MARÇO 26, 2020 ALEX SCHWARTSMAN

Há uma guerra em curso e para vencê-la teremos que passar por uma recessão inédita. Para evitar que dure muito mais que o necessário e para salvar vidas teremos que aumentar substancialmente o endividamento público. Quando emergirmos, espero, da crise, a tarefa de estabilização se tornará ainda mais difícil do que já era.

Normalmente escrevo minha coluna na segunda, logo cedo; excepcionalmente, dado que terá que ser publicada na quarta, a preparo na terça à tarde, quase uma violência para um CDF assumido, que sempre entregou trabalhos e lições com antecedência (menos minha tese de doutorado: um dia conto a história). Não é por acaso, mas sim porque a situação é incrivelmente fluida e novas informações surgem a cada minuto. Mesmo assim, sinto que a coluna estará irremediavelmente datada ao ser publicada.

Sabemos algumas coisas, mas nada, ou quase nada, sobre várias outras.

Está claro que a estratégia mais adequada no momento para conter a pandemia envolve uma quarentena generalizada, mantendo uns poucos setores essenciais (saúde, por óbvio, segurança, supermercados e farmácias, etc.). Parece ter funcionado em Hubei e há sinais, ainda incipientes, que pode reverter o quadro de infecção e mortalidade na Itália. Há cada vez mais países adotando medidas nesse sentido, mais recentemente o Reino Unido e a Índia e, se não quisermos problemas ainda maiores, também devemos enveredar por esse caminho.

Obviamente os custos econômicos são gigantescos. Mesmo com minhas restrições pessoais aos PMIs (índices de difusão que tentam medir a atividade quase em tempo real), não há como não se espantar com a divulgação do índice para a Zona do Euro, que caiu de 51,6 em fevereiro (leituras acima de 50 indicam expansão da atividade; abaixo, contração) para 31,4 em março. Em particular, no setor de serviços, mais fortemente atingido, a queda foi ainda mais marcante: de 52,6 para 28,4, o menor da história.

Nos EUA a queda não foi (ainda) tão pronunciada (de 49,6 para 40,5 entre fevereiro e março), mas já indica contração considerável e mais por vir.

Tal retração é necessária, ainda que dolorosa. Sem ela os riscos de os hospitais não darem conta dos infectados que necessitam de tratamento mais específico sobem demais e a taxa de mortalidade se torna ainda maior. Os números estão longe de ser definitivos, mas, até onde consigo entender, com o tratamento adequado a mortalidade ficaria próxima a 0,2% dos infectados; sem o tratamento, ao redor de 4%, inaceitável no século XXI.

Há, claro, os custos, inclusive em vidas humanas, da recessão por força das medidas de distanciamento social, mas a este respeito cito trabalho recente de Robert Barro, José Ursua e Joanna Weng sobre a “Gripe Espanhola” de 1918-19 que tenta estimar os efeitos da influenza sobre a atividade, chegando a um impacto ao redor de 6% de queda no PIB per capita (e 8% para o consumo per capita) para mortalidade ao redor de 2%. Se corretos, tais números sugerem que não combater a infecção por meio da quarentena terá resultados econômicos mais severos e por motivos ainda piores.

Nesse sentido, como notado por N. Gregory Mankiw, a recessão resultante dessas medidas é “ótima”, não por ser desejável, claro, mas por ser o melhor a fazer nas circunstâncias.

A questão passa a ser então mitigar os efeitos econômicos da recessão, tentando evitar que o impacto, esperamos, temporário da pandemia sobre a atividade se prolongue.

Há, ao menos, dois canais. Um deles é o aumento do desemprego, que tira renda de parcela substancial da população, reduzindo, portanto, seu consumo muito além do período de quarentena. O outro é a parada e possível, se não provável, destruição de empresas, principalmente de pequeno e médio portes, que podem não sobreviver no período pela restrição de caixa e dificuldade de obter o capital de giro para se manter em dia com despesas, em particular sua folha de pagamento.

Do lado do desemprego, as políticas mais bem sucedidas foram as empregadas pela Alemanha nos meses seguintes à Grande Recessão (embora existam bem antes disso): a redução de jornada e salários, mas com o Tesouro bancando parcela dos salários, com foco naqueles com renda mais baixa. Para o caso do Brasil, trabalho de Carlos Góes e Ricardo Dahis (que recebi recentemente) estima, com base na RAIS, em R$ 29 bilhões/mês o custo para o Tesouro no caso de compensação integral para quem receba até 1 salário-mínimo (SM), 93% para quem recebe até 2SM e 83% para quem ganha até 4SM.

Noto, assim como os autores, que tal proposta só atende o mercado formal de trabalho, que, pelos dados da PNAD, é algo como 3 vezes maior, em termos de massa salarial, que o mercado informal (incluindo nessa conta os trabalhadores por conta própria sem CNPJ), mas com prevalência de salários mais baixos, portanto uma ajuda proporcionalmente maior. Numa primeira aproximação, falamos, assim, de algo na casa de R$ 45 bilhões/mês (da ordem de 20% da massa salarial mensal), ou R$ 135 bilhões presumindo (por enquanto) que este esquema dure um trimestre.

Estimo, ao mesmo tempo, contração do PIB no ano ao redor de 5% (a certeza quanto a este número é baixa, mas os resultados que apresentarei não são tão sensíveis a esta suposição), o que pode reduzir a arrecadação em R$ 130 bilhões. Somados à meta fiscal para 2020 (déficit primário de R$ 124 bilhões), teríamos um resultado primário negativo ao redor de R$ 390 bilhões (5,3% do PIB, o maior da história).

Por outro lado, a taxa de juros deve cair além do já definido pelo Copom, de modo a reduzir a conta de juros para R$ 145 bilhões, portanto um déficit total de R$ 520 bilhões (7,3% do PIB, longe do nosso recorde, 8,5% do PIB em 2015).

Já no que se refere a empresas, Armínio Fraga, Vinícius Carrasco e José Alexandre Scheinkman propõem um programa de crédito de R$ 120 bilhões, bancado também pelo Tesouro (remeto os interessados nos detalhes ao artigo original).

Somados o déficit fiscal e a linha de crédito (cuja contrapartida, não esqueçamos, é aumento da dívida do governo), a dívida bruta saltaria de R$ 5,5 trilhões (75,8% do PIB) no final do ano passado para R$ 6,2 trilhões (86,7% do PIB) em 2020.

Não é um aumento trivial. Em particular, com 10 pontos percentuais de PIB a mais de dívida as condições para sua redução nos próximos anos ficam ainda mais complicadas, isto é, os resultados primários requeridos para conter a dívida se tornam tipicamente maiores.

Não é, reitero, motivo para deixar de fazer o que está sendo proposto. A questão agora não é estabilizar a dívida, mas vencer o vírus e manter vivas pessoas e empresas ao longo de um período dificílimo. Independentemente de tais méritos, porém, quando retornarmos (se retornarmos) a um certo grau de normalidade, nossa tarefa vai ser ainda mais árdua do que era antes da pandemia.

Passada a crise, as reformas serão ainda mais necessárias do já eram e os riscos à estabilidade bem maiores. Façamos, então, tudo que deve ser feito para preservar vidas, mas não se esqueçam que há tarefas também hercúleas quando o pior tiver sido (como espero) superado.

Fonte: http://maovisivel.blogspot.com/2020/03/ ... a.html?m=1

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Huxley
Mensagens: 334
Registrado em: Sáb, 07 07America/Sao_Paulo Março 07America/Sao_Paulo 2020 - 20:48 pm

Mensagem por Huxley »

O primeiro artigo é de dois probabilistas de sistemas complexos. O segundo é de um economista ex-diretor do Bacen. No primeiro, vemos o quão defeituosa é a sugestão de Bolsonaro (isolamento vertical, etc.) e assemelhados para a crise epidemiológica atual. No segundo artigo, vemos o quão defeituoso é o argumento de que bloquear o lockdown seja salvar a economia da recessão. Nenhum lockdown significativo foi feito no período da gripe espanhola, mas, ainda assim, ela fez o PIB per capita contrair 6%, além de ter matado 2% da população humana da Terra.

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Pedro Reis
Mensagens: 219
Registrado em: Ter, 24 24America/Sao_Paulo Março 24America/Sao_Paulo 2020 - 11:28 am

Mensagem por Pedro Reis »

Huxley escreveu:
Sex, 27 27America/Sao_Paulo Março 27America/Sao_Paulo 2020 - 00:11 am
O primeiro artigo é de dois probabilistas de sistemas complexos. O segundo é de um economista ex-diretor do Bacen. No primeiro, vemos o quão defeituosa é a sugestão de Bolsonaro (isolamento vertical, etc.) e assemelhados para a crise epidemiológica atual. No segundo artigo, vemos o quão defeituoso é o argumento de que bloquear o lockdown seja salvar a economia da recessão. Nenhum lockdown significativo foi feito no período da gripe espanhola, mas, ainda assim, ela fez o PIB per capita contrair 6%, além de ter matado 2% da população humana da Terra.
Sim, nós estávamos justamente falando sobre isso no outro tópico. De que levantar a quarentena não salvaria o país da recessão (provavelmente acarretaria em recessão ainda maior).

Você deveria ter postado lá.

A pergunta que eu faço é: será que o Bozo é tão burro? E mesmo se for, não tem assessores competentes para explicar ao presidente o tamanho do equívoco?

Ou será que o pronunciamento foi um cálculo político cínico, visando jogar a culpa do aprofundamento da crise em políticos que serão seus adversários em 2022?

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Avatar do usuário
JJ_JJ
Mensagens: 611
Registrado em: Sex, 06 06America/Sao_Paulo Março 06America/Sao_Paulo 2020 - 10:32 am
Localização: Goiás

Mensagem por JJ_JJ »

Pedro Reis escreveu:
Sex, 27 27America/Sao_Paulo Março 27America/Sao_Paulo 2020 - 00:29 am

A pergunta que eu faço é: será que o Bozo é tão burro? E mesmo se for, não tem assessores competentes para explicar ao presidente o tamanho do equívoco?

Ou será que o pronunciamento foi um cálculo político cínico, visando jogar a culpa do aprofundamento da crise em políticos que serão seus adversários em 2022?

1) o messias é seguidor fiel do astrólogo;

2) o Bô é fã do ustra;


Você realmente espera quem um olavista e ardoroso fã do ustra se importe com brazucas pobres e velhos morrerem (ou mesmo pobres mais jovens) ?

E também temos:

Pensamento Neo Old liber brazuca : Se um milhão de velhos pobres morrerem será um alívio para a seguridade social . Bom para as contas públicas.

Não é equívoco, é malignidade.

Parece que há pessoas que não acreditam que existam pessoas malignas.

:geek:

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Avatar do usuário
JJ_JJ
Mensagens: 611
Registrado em: Sex, 06 06America/Sao_Paulo Março 06America/Sao_Paulo 2020 - 10:32 am
Localização: Goiás

Mensagem por JJ_JJ »

Gente maligna, sociopatas e psicopatas existem.

Não é fantasia de filmes.

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Avatar do usuário
Gigaview
Moderador
Mensagens: 1095
Registrado em: Seg, 02 02America/Sao_Paulo Março 02America/Sao_Paulo 2020 - 13:48 pm

Mensagem por Gigaview »

Soma-se a isso tudo a mentalidade de milico. Ele se acha o comandante de uma tropa que para atingir um objetivo deve sacrificar vidas que serão lembradas nos cemitérios como estatísticas da guerra.

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Avatar do usuário
JJ_JJ
Mensagens: 611
Registrado em: Sex, 06 06America/Sao_Paulo Março 06America/Sao_Paulo 2020 - 10:32 am
Localização: Goiás

Mensagem por JJ_JJ »

Gigaview escreveu:
Dom, 29 29America/Sao_Paulo Março 29America/Sao_Paulo 2020 - 11:29 am
Soma-se a isso tudo a mentalidade de milico. Ele se acha o comandante de uma tropa que para atingir um objetivo deve sacrificar vidas que serão lembradas nos cemitérios como estatísticas da guerra.

Desde que não seja a vida dele e dos filhos dele.

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Avatar do usuário
Titoff
Mensagens: 349
Registrado em: Ter, 17 17America/Sao_Paulo Março 17America/Sao_Paulo 2020 - 11:47 am

Mensagem por Titoff »

O tal isolamento horizontal é a estratégia a ser adotada segundo o atual consenso científico.

E sempre foi dito que isso causará recessão e um baque forte na população, mesmo com governos atuando ativamente e com seriedade. Enfiar a cabeça na areia em nome da "economia" só traria desgraças ainda piores.

À população é pedido que ela faça sacrifícios, e nessa hora quem tem menos, tem mais a perder. Se o sacrifício for deixar de comer e ver filhos passando fome, ele não será aceito e o isolamento social será mandado às favas e o risco de caos será maior.

Por isso a importancia de um governo ter líderes competentes. Não pedimos para ninguém ser perfeito ou um herói, apenas para agir rápido e com um plano decente e baseado na realidade dos fatos, coordenado através do país (e do mundo). E isso passa sim a dar dinheiro a pessoas, ou mesmo comida e remédios, antes que seja tarde demais. Ajuda a pessoas físicas, e a pessoas jurídicas se precisar. Rápido e tão eficiente quanto possível. Assim eu penso, assim eu entendi.

Agora, no Brasil o governo federal, na figura do bozo, parece querer mais ver o circo pegar fogo. A confusão, falta de diálogo e mesmo embate contra outras esferas dos governos federal e estaduais, além de embate contra o consenso científico, nesse momento parece investir no pior dos cenários.

Desde de que o bozo passou a adotar o lema "velhinho bom é velhinho morto," há uma enxurrada de memes, lacrações e espantalhos sendo criados de forma coordenada através de sua propaganda não oficial, que sempre andou na borda da criminalidade. A famosa "milícia virtual." Ela infla os eleitores bolsolavistas a querer seguir a intuição e bom senso (hahaha) do terrorista miliciano ao invés de ouvir as duras verdades ditas pela OMS, economistas e acadêmicos especialistas em áreas relevantes ao gigantesco problema.

Isso só traz - justificadamente - mais ansiedade e preocupação quanto ao que pode ocorrer ao Brasil. Não me iludo: sei que os demais governantes que tem batido de frente com as canalhices propagadas pelo presidente não são flor que se cheire também. Mesmo assim, se comportam de forma muito mais sensata, independente de suas motivações internas. Só que essa descoordenação acaba gerando medidas frouxas em alguns lugares e draconianas em outros.

A falta de um centro para dialogar, estudar, distribuir recursos (para ontem!), e mesmo dar graus de liberdade para estados decidirem qual a melhor estratégia a ser adotada localmente no momento, está condenando milhões de vidas a enfrentarem um cenário econômico e de saúde muito pior. Temo pelo que pode ocorrer.

Mal pelo textão.

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Avatar do usuário
Gigaview
Moderador
Mensagens: 1095
Registrado em: Seg, 02 02America/Sao_Paulo Março 02America/Sao_Paulo 2020 - 13:48 pm

Mensagem por Gigaview »

Isolamento vertical só existe se for possível isolar todo o grupo de risco da sociedade. Numa pandemia num futuro distante talvez será possível colocar todo o grupo de risco na Lua, o lugar preferido pelos bosomínios.

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Huxley
Mensagens: 334
Registrado em: Sáb, 07 07America/Sao_Paulo Março 07America/Sao_Paulo 2020 - 20:48 pm

Mensagem por Huxley »

Artigo do economista Alexandre Schwartsman, agora mostrando com mais detalhes as pistas dadas pela gripe espanhola sobre a relação entre saúde epidemiológica e economia.

Pandemia vs. recessão

Parafraseando Winston Churchill, nos é dada a escolha entre a pandemia e a recessão; se escolhermos a pandemia, teremos também a recessão

Fonte: https://www.infomoney.com.br/colunistas ... -recessao/

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Huxley
Mensagens: 334
Registrado em: Sáb, 07 07America/Sao_Paulo Março 07America/Sao_Paulo 2020 - 20:48 pm

Mensagem por Huxley »

Um retweet do Eli Vieira, muito bom:
https://twitter.com/ThomasVConti/status ... 8845718534

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Avatar do usuário
Gabarito
Site Admin
Mensagens: 631
Registrado em: Seg, 02 02America/Sao_Paulo Março 02America/Sao_Paulo 2020 - 06:49 am

Mensagem por Gabarito »

Huxley escreveu:
Sáb, 04 04America/Sao_Paulo Abril 04America/Sao_Paulo 2020 - 17:39 pm
Um retweet do Eli Vieira, muito bom:
https://twitter.com/ThomasVConti/status ... 8845718534
Quarentena - Análise econômica.jpg
Cenário 1 - sem distanciamento, podem achar que haverá custo em vidas máximo e custo econômico mínimo. Mas está errado. Antes de tudo: é um cenário crível? Resposta: NÃO. A pandemia causa medo crescente, deixar ela correr é questão de tempo para isolamento voluntário.

No Cenário 1 - sem distanciamento, o que ocorre é que haverá um tempo, contado em semanas, antes que o medo ou até o terror da pandemia faça as pessoas ficarem em casa. Vala comum, corpos nas ruas abandonados. Nessa hora, vão impor distanciamento de supressão - muito caro.

Além do distanciamento de supressão (Wuhan, Itália) ser muito caro, ele será colocado por medo. Isto é, a saúde já estará em colapso ou perto disso, serviço funerário idem. Será preciso manter gastos de saúde extraordinários sob um cenário econômico de mais restrições.

Qualquer ganho/perda econômica por adoção de medidas de distanciamento precisa ser comparada com o seu correto contrafactual, e o contrafactual realista (mais provável) é esse Cenário 1. Logo, basta que o distanciamento seja superior a esse alto custo do Cenário 1.

Mas qual distanciamento e quando? Cenário 2 - distanciamento daqui algumas semanas, versus Cenário 3 - distanciamento imediato.

Vantagem do Cenário 2: economia gira um pouco mais, arrecada mais impostos. Problema: sem distanciamento, taxa de crescimento do vírus é 30% ao dia. Quase impossível um investimento econômico ter esse retorno. Qualquer ganho nessas semanas virará custos maiores para saúde e logo.

Cenário 3 - distanciamento imediato: sacrifício de um pouco de atividade econômica agora, mas evita o custo social que crescia a 30% ao dia da saúde. Valor econômico positivo e muito alto ante Cenário 2 e ainda maior ante o Cenário 3.

Um investidor inteligente perceberia isso em 1min se fossem 3 estratégias diferentes para a empresa dele. Pq na política pública não? 1. Ainda subestimam o covid, 2. Modelo comportamental não inclui o medo da pandemia, e 3. Pol Pub o custo de oportunidade é social e não privado.

Esses e outros argumentos explicados em detalhe em breve no texto para discussão que estou terminando sobre escolhas baseadas em evidências para a crise do covid. Mais informações em breve!

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Huxley
Mensagens: 334
Registrado em: Sáb, 07 07America/Sao_Paulo Março 07America/Sao_Paulo 2020 - 20:48 pm

Mensagem por Huxley »

Mais uma evidência devastadora contra o discurso “Ou o controle da epidemia com distanciamento social ou a economia”:
Na Alemanha, que está com a epidemia sob controle desde maio, a demanda nos restaurantes já voltou ao normal de 2019 e está até 5% maior que no ano passado. Enquanto isso nos Estados Unidos a demanda segue em menos da metade de 2019. Quer recuperar a economia? Controle o covid. (Thomas Conti)
Fonte: https://twitter.com/ThomasVConti/status ... 5206476800

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Huxley
Mensagens: 334
Registrado em: Sáb, 07 07America/Sao_Paulo Março 07America/Sao_Paulo 2020 - 20:48 pm

Mensagem por Huxley »

Imagem

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Avatar do usuário
André Luiz
Mensagens: 26
Registrado em: Ter, 23 23America/Sao_Paulo Junho 23America/Sao_Paulo 2020 - 13:22 pm

Mensagem por André Luiz »

Imunidade de rebanho significaria uma tragédia retumbante

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Huxley
Mensagens: 334
Registrado em: Sáb, 07 07America/Sao_Paulo Março 07America/Sao_Paulo 2020 - 20:48 pm

Mensagem por Huxley »

Mais uma evidência devastadora contra o discurso “Ou o controle da epidemia com distanciamento social ou a economia”:
Índice de atividade e atividade econômica:

O Reino Unido com fechamento tardio, os EUA com diversas abordagens e mais de 150.000 mortos, e a Suécia com poucas restrições tiveram menos atividade em julho do que a Espanha, Alemanha e França.

#ht @NadavEyalDesk”

Imagem
(Yaneer Bar-Yam, tweet traduzido para o português)

Fonte: https://twitter.com/yaneerbaryam/status ... 2292867084

Re: Isolamento vertical/imunidade de grupo: salvação da economia?

Huxley
Mensagens: 334
Registrado em: Sáb, 07 07America/Sao_Paulo Março 07America/Sao_Paulo 2020 - 20:48 pm

Mensagem por Huxley »

Huxley escreveu:
Qui, 30 30America/Sao_Paulo Julho 30America/Sao_Paulo 2020 - 21:26 pm
Mais uma evidência devastadora contra o discurso “Ou o controle da epidemia com distanciamento social ou a economia”:
Índice de atividade e atividade econômica:

O Reino Unido com fechamento tardio, os EUA com diversas abordagens e mais de 150.000 mortos, e a Suécia com poucas restrições tiveram menos atividade em julho do que a Espanha, Alemanha e França.

#ht @NadavEyalDesk”

Imagem
(Yaneer Bar-Yam, tweet traduzido para o português)

Fonte: https://twitter.com/yaneerbaryam/status ... 2292867084
Foi feito uma referência à Suécia, que prometia ser um exemplo de não fechar a economia para minimizar a perda de empregos. Só que outros países escandinavos, como Dinamarca e Noruega, que decretaram restrições de distanciamento social, tiveram uma piora menor na taxa de desemprego:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-not ... ecadas.htm
Responder