Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

Área destinada à discussão sobre Ceticismo e a Incredulidade Humana

Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Ricardo
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Registrado em: Sáb, 05 Setembro 2020 - 10:16 am

Mensagem por Ricardo »

Gostaria de propor uma reflexão sobre a demarcação entre o ceticismo científico saudável e o que Marcello Truzzi (cofundador do CSICOP) classificou como pseudoceticismo.

Muitas vezes, na pressa de defender o consenso científico, corremos o risco de cair no cientificismo — transformando o método científico em um conjunto de dogmas fechados. Segundo Truzzi, o verdadeiro cético deveria ser um "Zetético": alguém que mantém a dúvida sobre todas as hipóteses, inclusive sobre a própria negação.

Proponho debatermos os seguintes pontos:

A Carga da Prova na Negação: Se um proponente afirma um fenômeno, ele tem o ônus da prova. Mas, se um cético afirma que tal fenômeno é impossível ou falso, ele também não assume o ônus de provar essa negação com dados, em vez de apenas sugerir "fraude" ou "alucinação" como explicação padrão?

O Tratamento das Anomalias: A ciência avança pelo estudo das anomalias que o modelo atual não explica. Quando ignoramos dados bem documentados (como os estudos sobre consciência e EQM em condições de morte clínica) apenas por serem "extraordinários", estamos protegendo a ciência ou protegendo um paradigma materialista?

Padrão Sagan: "Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias", mas isso não deveria ser usado como uma barreira intransponível para evitar a investigação de fenômenos que desafiam o status quo.

O objetivo deste post é questionar: como podemos garantir que nossa postura aqui no fórum seja de investigação imparcial (Zetética) e não apenas de negação dogmática?

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Gorducho
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Mensagem por Gorducho »

Sr. Ricardo escreveu:
Dom, 08 Fevereiro 2026 - 16:59 pm
como podemos garantir que nossa postura aqui no fórum seja de investigação imparcial (Zetética)
Bom, na minha condição de Estudioso de Espiritismo – sem falsas modéstias: vero – concordo 100% :-BD
Lá no Obras Psicografadas tem várias propostas, principalmente de outros, e até colaborações minhas, sobre como investigar experimentalmente o Espiritismo.
Meu foco = Espiritismo porque é o assunto que domino.
Mas evidentemente deve-se investigar NDEs, &c.
e não apenas de negação dogmática?
Seria útil pro debate se acaso o Sr. notou(ar) essa postura n'algum dos Debatedores, trazer a lume.

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Ricardo
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Mensagem por Ricardo »

Prezado Gorducho, agradeço a postura aberta e o convite à Zetética real. Notei, sim, em outros debates (inclusive internacionais), uma tendência ao que chamo de 'Materialismo Promissório': a negação dogmática de qualquer alternativa ao materialismo, baseada apenas na promessa de que a ciência um dia explicará tudo.Sobre a investigação experimental, concordo que o caminho é esse. O desafio é que, antes do experimento, precisamos resolver a questão ontológica: se a ciência não resolve o Problema Difícil da Consciência (explicar como a matéria gera o qualia), ela não tem autoridade para descartar a hipótese da consciência como princípio independente.Gostaria muito de conhecer suas propostas de investigação experimental. Como você sugere que testemos a hipótese da 'mediação' (cérebro como rádio) em oposição à 'produção' (cérebro como gerador)?

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Fernando Silva
Conselheiro
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Mensagem por Fernando Silva »

Ricardo escreveu:
Dom, 08 Fevereiro 2026 - 16:59 pm
O Tratamento das Anomalias: A ciência avança pelo estudo das anomalias que o modelo atual não explica. Quando ignoramos dados bem documentados (como os estudos sobre consciência e EQM em condições de morte clínica) apenas por serem "extraordinários", estamos protegendo a ciência ou protegendo um paradigma materialista?
Fenômenos têm que ser investigados, mas, na falta de evidências, podemos no máximo dizer "não sei" e criar hipóteses para explicar o que foi observado.
Sendo que a hipótese mais simples - e que não requer a inclusão de elementos não comprovados - terá mais peso.

Quanto a "a ciência não explica", é preciso provar também que "a ciência nunca explicará".

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Gorducho
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Mensagem por Gorducho »

Sr. Ricardo escreveu:
Seg, 09 Fevereiro 2026 - 09:03 am
Gostaria muito de conhecer suas propostas de investigação experimental. Como você sugere que testemos a hipótese da 'mediação' (cérebro como rádio) em oposição à 'produção' (cérebro como gerador)?
Não sugiro. Sempre procuro deixar claro que m/área é o Espiritismo. Aí sim me sinto perfeitamente à vontade pra discorrer e até ajudar quem queira de fato investigar experimentalmente. Baseando os experimentos nas alegações do Espiritismo.
Subsidiariamente se sinto à vontade pra ser cético quanto à Parapsicologia visto a absoluta ausência de progressos agora já ~ 1 século desde o início dessa modalidade. Mas se algum dia se consolidarem conclusões = 🆗 claro.
se a ciência não resolve o Problema Difícil da Consciência (explicar como a matéria gera o qualia), ela não tem autoridade para descartar a hipótese da consciência como princípio independente.
Desde que os proponentes dessa alternativa tenham sempre BEM PRESENTE ser HIPÓTESE.
E note a circularidade: se e quando se constatar ser esta "1 Princípio Independente", terá sido resolvido "cientificamente" por definição.
≠ CRENÇA, note.
Sr. Fernando Silva escreveu:Quanto a "a ciência não explica", é preciso provar também que "a ciência nunca explicará".
E, como falei acima, caso se constate ser "Consciência" alguma "coisa" "independente", like say being able to free floating around, terá por definição sido "a Ciência" que explicou (= modelizou).

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

fenrir
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Registrado em: Qui, 19 Março 2020 - 21:59 pm

Mensagem por fenrir »

Ricardo escreveu:
Seg, 09 Fevereiro 2026 - 09:03 am
Prezado Gorducho, agradeço a postura aberta e o convite à Zetética real. Notei, sim, em outros debates (inclusive internacionais), uma tendência ao que chamo de 'Materialismo Promissório': a negação dogmática de qualquer alternativa ao materialismo, baseada apenas na promessa de que a ciência um dia explicará tudo.Sobre a investigação experimental, concordo que o caminho é esse. O desafio é que, antes do experimento, precisamos resolver a questão ontológica: se a ciência não resolve o Problema Difícil da Consciência (explicar como a matéria gera o qualia), ela não tem autoridade para descartar a hipótese da consciência como princípio independente.Gostaria muito de conhecer suas propostas de investigação experimental. Como você sugere que testemos a hipótese da 'mediação' (cérebro como rádio) em oposição à 'produção' (cérebro como gerador)?
Dizer que "a ciẽncia nunca explicará algo" não é tambem ser dogmático?
O que te dá tal certeza? Só a teria se viajasse no tempo, no futuro (enquanto durasse a especie humana, enquanto existisse ciencia) e pudesse constatar que de fato a ciencia nunca explicara aquele algo.
Tambem só poderia afirmar tal coisa se conhecesse **toda** a ciencia. não só a do presente, mas a que está por vir, ainda no futuro.
Porque só conhecendo-a de forma completa, poderia vislumbrar o que ela poderia ou não alcançar. Numa analogia, como conhecer o tamanho e os limites de um continente, se o mapa dele tem uma parte faltando?

Nem eu, que sou cético ferrenho quanto a existencia de deus(es), almas & cia descarto **totalmente** essas coisas.
Sendo absolutamente honesto, admito um 0,00..1 de resíduo de duvida, porque:
a) não posso prever nada no futuro
b) porque tambem não posso pensar alem das minhas capacidades (óbvio)
c) porque tambem preciso ser cético quanto ao meu próprio ceticismo
Então sempre haverá algo que me escapa, quer seja porque está num outro tempo inacessível, quer seja porque excede minha capacidade de compreensão.

A esse propósito, usei o exemplo de um Australopiteco e a internet num outro tópico.

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Gorducho
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Registrado em: Sex, 20 Março 2020 - 08:55 am

Mensagem por Gorducho »

Aliás tem outra circularidade que eu ia mencionar e acabei esquecendo:
Sr. Ricardo escreveu:antes do experimento, precisamos resolver a questão ontológica: se a ciência não resolve o Problema Difícil da Consciência (explicar como a matéria gera o qualia),
Se não há experimento nunca vai ter como "resolver" – es decir: explicar (= modelizar).
Claro: sempre haverá que discutir como e a validade das conclusões de experimentos. Mas sem haver experimentos cujo resultado possa ser = FAIL nunca se concluirá – ainda que provisoriamente como SEMPRE deve ser em Ciências – nada.
Editado pela última vez por Gorducho em Seg, 09 Fevereiro 2026 - 12:31 pm, em um total de 1 vez.

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

Huxley
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Mensagem por Huxley »

Ricardo escreveu:
Dom, 08 Fevereiro 2026 - 16:59 pm
A Carga da Prova na Negação: Se um proponente afirma um fenômeno, ele tem o ônus da prova. Mas, se um cético afirma que tal fenômeno é impossível ou falso, ele também não assume o ônus de provar essa negação com dados, em vez de apenas sugerir "fraude" ou "alucinação" como explicação padrão?
Nesses casos, mesmo que um cético não tenha o direito de negação, ele tem o direito de não acreditar. Em debates racionais, quem faz uma afirmação extraordinária carrega o ônus de fornecer evidências proporcionais à magnitude da alegação. Não é necessário apresentar provas equivalentes para rejeitar ou duvidar de uma afirmação. A ausência de evidências sólidas já é suficiente para manter a dúvida.

Ricardo escreveu:
Dom, 08 Fevereiro 2026 - 16:59 pm

O Tratamento das Anomalias: A ciência avança pelo estudo das anomalias que o modelo atual não explica. Quando ignoramos dados bem documentados (como os estudos sobre consciência e EQM em condições de morte clínica) apenas por serem "extraordinários", estamos protegendo a ciência ou protegendo um paradigma materialista?
A barreira intransponível de um cético empírico contra explicações mágicas não se chama “materialismo”, mas sim “naturalismo metodológico”:
Huxley escreveu:
Qua, 21 Janeiro 2026 - 11:20 am
Não se trata de o ceticismo empírico e o naturalismo metodológico afirmarem que somente causas físicas construíram o mundo que conhecemos, mas sim de reconhecer que apenas causas desse tipo podem ser estudadas e compreendidas. Precisamos investigar com os instrumentos que temos, pois é impossível estudar causas não físicas sem ao menos uma ideia clara do que seriam e de como funcionariam essas supostas “causas não físicas”.

Os testemunhos humanos não são descartados como método de busca desinteressada pela verdade. No entanto, há quem pretenda atribuir aos testemunhos mais credibilidade do que às leis naturais corroboradas por observações e experimentos. O filósofo David Hume já discutiu a confiabilidade epistêmica dos testemunhos.

Seu raciocínio se baseia em três pontos principais:
  • Regularidade da natureza: As leis naturais são confirmadas por uma experiência constante e uniforme.
  • Testemunho humano: O testemunho pode ser falho, sujeito a engano, exagero ou fraude.
  • Comparação de probabilidades: Para aceitar um “milagre”, a credibilidade do testemunho deve superar a improbabilidade do evento relatado.
O que o leva à sua famosa conclusão: “Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que o testemunho seja de tal natureza que a sua falsidade fosse mais milagrosa do que o fato que procura estabelecer.”

Ricardo escreveu:
Dom, 08 Fevereiro 2026 - 16:59 pm
Padrão Sagan: "Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias", mas isso não deveria ser usado como uma barreira intransponível para evitar a investigação de fenômenos que desafiam o status quo.
Por razões já expostas, não se pode desafiar o status quo com alegações como: “Existe uma substância não física causando os fenômenos”. Nesse sentido, há de fato uma barreira intransponível. Todavia, a ausência de detecção de mecanismos causais claros em um fenômeno não significa necessariamente que eles não existam:
Huxley escreveu:
Qua, 21 Janeiro 2026 - 21:18 pm
No que diz respeito ao naturalismo, não sabemos se uma distinção legítima entre entidades sobrenaturais e entidades naturais é passível de ser feita em termos conceituais. Mesmo que existam divindades, espíritos e fantasmas, nada impede que eles sejam “naturais”, isto é, que façam parte do conjunto de leis, elementos ou fenômenos do mundo físico. Se chamarmos de “sobrenatural” tudo aquilo que parece fugir a qualquer tentativa de compreensão direta, então o sistema de ecolocalização do morcego já foi um exemplo histórico de “sobrenatural”. Ainda assim, mesmo que algo pudesse ser agora alcunhado como “sobrenatural”, duvido que teríamos razão para manter permanentemente o status desse termo, especialmente se a humanidade e o progresso do seu conhecimento sobreviverem por muito tempo.
Huxley escreveu:
Seg, 15 Dezembro 2025 - 20:34 pm

Segundo a epistemologia da ciência, ninguém tem direito de deslegitimar a verificação da existência de fenômenos apenas pelo fato de seus mecanismos causais não serem claros.

Imaginei um teste em que voluntários de um experimento sobre mediunidade veem um código secreto sorteado aleatoriamente, colocam esse código em uma cápsula do tempo e, após as mortes deles, verifica‑se se existem pessoas que se dizem médiuns capazes de adivinhar o código em uma frequência maior do que a esperada pelo acaso estatístico. Porém, até hoje, não conheço experimento igual ou muito parecido que produziu resultados acima do acaso.

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Gorducho
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Mensagem por Gorducho »

Sr. Huxley escreveu:Imaginei um teste em que voluntários de um experimento sobre mediunidade veem um código secreto sorteado aleatoriamente, colocam esse código em uma cápsula do tempo e, após as mortes deles, verifica‑se se existem pessoas que se dizem médiuns capazes de adivinhar o código em uma frequência maior do que a esperada pelo acaso estatístico. Porém, até hoje, não conheço experimento igual ou muito parecido que produziu resultados acima do acaso.
BEM + simples que isso. N'1 ambiente à la cabine eleitoral 1 computador sorteia 2 ~ 3 cifras nm, em formado bem grande pro Espírito não ter dificuldade pra enxergar a telinha, claro. 1 de cada x de modo que o Espírito lê e transmite pro(a) médium, e volta...
Podem haver variantes com imagens simples, não ambíguas, ou leitura de pequenos trechos de enciclopédias abertas aleatoriamente, claro.
NÃO TEM FREQUÊNCIAS: mediunidade proper (que "seja médium" mesmo, desconsiderando os traços de mediunidade que Doutrinariamente todos nós temos) não é Estatística.
Estatísticas = Parapsicologia.

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Ricardo
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Mensagem por Ricardo »

Pois é Gorducho concordo plenamente que o 'não sei' é a resposta mais honesta muitas vezes. Mas tem um detalhe aí nessa história de 'hipótese mais simples Muita gente acha que o materialismo é a hipótese mais simples porque a gente vê e toca nas coisas. Só quena real o materialismo tem um problemão que a ciência não consegue resolver de jeito nenhum o tal do 'problema difícil da consciência Ninguém faz a menor ideia de como matéria 'morta' vira sentimento ou percepção Se a gente for usar a Navalha de Ockham de verdade por que não pensar que a consciência é que é o fundamento? O Donald Hoffman (aquele cientista da computação e de sistemas visuais) tem uns papers mostrando matematicamente que a nossa percepção não mostra a realidade como ela é mas sim uma interface Tipo os ícones do Windows — o ícone não é o arquivo é só o jeito simples da gente lidar com ele

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Humanista
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Ricardo escreveu:
Seg, 09 Fevereiro 2026 - 15:45 pm
Muita gente acha que o materialismo é a hipótese mais simples porque a gente vê e toca nas coisas.
Sendo que a mente é a condição sine qua non de qualquer ver/tocar.

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

Huxley
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Mensagem por Huxley »

Ricardo escreveu:
Seg, 09 Fevereiro 2026 - 09:03 am
O desafio é que, antes do experimento, precisamos resolver a questão ontológica: se a ciência não resolve o Problema Difícil da Consciência (explicar como a matéria gera o qualia), ela não tem autoridade para (…)
O chamado “Problema Difícil da Consciência” é a formulação do filósofo da mente David Chalmers para a pergunta:

> “Por que e como processos físicos no cérebro produzem experiência subjetiva (qualia)?”

No entanto, essa formulação não é categoricamente diferente de outras questões clássicas da ciência, como:

> “Por que e como processos bioquímicos produzem a digestão?”

ou

> “Por que e como processos eletromagnéticos produzem campos magnéticos?”

Em todos esses casos, lidamos com propriedades emergentes de sistemas físicos complexos, cuja explicação exige níveis adequados de descrição, não a postulação de novas entidades ontológicas.

A consciência subjetiva não é algo “extra” além do mundo físico, nem um mistério que surge magicamente da matéria. O que existe é uma lacuna explicativa provisória sobre como certos processos neurobiológicos dão origem à experiência consciente — lacuna esta que não autoriza, por si só, a conclusão de que a consciência seja um princípio ontologicamente independente.

Uma posição bem articulada nesse sentido é o naturalismo biológico, associado a autores como John Searle. Nessa perspectiva, a consciência é:
  • ontologicamente subjetiva (só existe enquanto vivida por um sujeito), mas
  • epistemologicamente objetiva (pode ser estudada de modo científico, público e sistemático).
Como observa Searle, “a dor é subjetiva, mas isso não impede que a neurociência estude objetivamente os estados cerebrais que a causam”.

Portanto, o chamado “Problema Difícil” não revela uma falha ontológica da ciência, mas sim os limites atuais do nosso conhecimento empírico sobre o cérebro. A ciência não precisa resolver completamente esse problema para ter legitimidade em rejeitar hipóteses dualistas ou não naturalistas — assim como não precisou de uma explicação molecular completa da digestão para afirmar que ela não depende de princípios extrafísicos.

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

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Humanista
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Registrado em: Sex, 09 Janeiro 2026 - 18:46 pm

Mensagem por Humanista »

Huxley escreveu: Em todos esses casos, lidamos com propriedades emergentes de sistemas físicos complexos, cuja explicação exige níveis adequados de descrição, não a postulação de novas entidades ontológicas.
Por acaso o que se entende por "sistema físico" implica coisas como Intencionalidade, Razão e Liberdade?
Se sim, esse seu conceito de matéria tá bem diferente heim.
Se não, tem que postular uma nova entidade ontológica sim.
Huxley escreveu: A consciência subjetiva não é algo “extra” além do mundo físico, nem um mistério que surge magicamente da matéria. O que existe é uma lacuna explicativa provisória sobre como certos processos neurobiológicos dão origem à experiência consciente — lacuna esta que não autoriza, por si só, a conclusão de que a consciência seja um princípio ontologicamente independente.
Só tem uma diferença. A consciência subjetiva é o fundamento absoluto do próprio conhecimento científico.
Está em um nível completamente diferente de um mero fenômeno interno ao mundo empírico.
Porque é a condição do próprio haver-empiricidade at all (in first place). É transcendental.
Huxley escreveu: Portanto, o chamado “Problema Difícil” não revela uma falha ontológica da ciência, mas sim os limites atuais do nosso conhecimento empírico sobre o cérebro. A ciência não precisa resolver completamente esse problema para ter legitimidade em rejeitar hipóteses dualistas ou não naturalistas — assim como não precisou de uma explicação molecular completa da digestão para afirmar que ela não depende de princípios extrafísicos.
A consciência não é um objeto a mais dentro do mundo pra ser explicado igual digestão.
Dá pra explicar a objetividade a partir da subjetividade (intersubjetivamente).
Mas é necessariamente estruturalmente impossível extrair sujeitos de objetos.

Re: Ceticismo Zetético vs. Pseudoceticismo: Onde traçamos a linha?

Huxley
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Mensagem por Huxley »

Humanista escreveu:
Seg, 09 Fevereiro 2026 - 18:14 pm
Por acaso o que se entende por "sistema físico" implica coisas como Intencionalidade, Razão e Liberdade?
Se sim, esse seu conceito de matéria tá bem diferente heim.
Se não, tem que postular uma nova entidade ontológica sim.
A objeção parte de uma premissa que John Searle rejeita explicitamente: a ideia de que “sistema físico” só pode significar algo exaurido pela descrição da física fundamental.

No naturalismo biológico, sistemas físicos complexos — como cérebros — possuem propriedades sistêmicas reais, causadas por sua organização, que não aparecem no nível das partículas, mas que não são entidades ontológicas adicionais.

Intencionalidade, por exemplo, não é uma substância nem um princípio extra-físico. Para Searle, ela é uma propriedade biológica de certos estados mentais, do mesmo modo que a digestão é uma propriedade biológica do sistema digestivo. Nenhuma “nova entidade” é postulada para explicar a digestão; o mesmo vale para a intencionalidade.

O mesmo raciocínio vale para razão e liberdade. A capacidade racional emerge de cérebros capazes de representação, deliberação e avaliação de razões. A liberdade não exige violação das leis da física, mas consiste em um tipo específico de causação consciente de alto nível, biologicamente realizada.

Confundir a necessidade de novos níveis de descrição com a necessidade de novas entidades ontológicas é um erro categorial. Precisar de conceitos mentais para descrever certos fenômenos não implica que esses fenômenos não sejam inteiramente naturais.

Em suma: sim, intencionalidade, razão e liberdade são propriedades de certos sistemas físicos — mas isso não torna o conceito de matéria “diferente”; apenas abandona uma visão empobrecida e reducionista do que sistemas físicos podem fazer quando organizados de maneira adequada.
Humanista escreveu:
Seg, 09 Fevereiro 2026 - 18:14 pm

Só tem uma diferença. A consciência subjetiva é o fundamento absoluto do próprio conhecimento científico.
Está em um nível completamente diferente de um mero fenômeno interno ao mundo empírico.
Porque é a condição do próprio haver-empiricidade at all (in first place). É transcendental.
Concordo que a consciência subjetiva é condição do conhecimento científico no sentido epistemológico: toda observação, toda teoria e toda evidência só existem para um sujeito consciente. Nesse ponto, não há divergência real.

O desacordo surge quando essa prioridade epistemológica é convertida em uma prioridade ontológica. É justamente essa passagem que John Searle considera ilegítima.

O fato de a consciência ser condição de possibilidade da empiricidade para nós não implica que ela esteja fora do mundo natural ou em um “nível transcendental” distinto do empírico. Significa apenas que certos fatos do mundo — como a prática científica — dependem causalmente da existência de organismos conscientes.

Na perspectiva do naturalismo biológico, a ordem correta não é consciência → mundo empírico, mas mundo biológico → cérebros → consciência → conhecimento científico. A consciência não funda ontologicamente o mundo; ela emerge causalmente de processos neurobiológicos e, uma vez existente, passa a desempenhar um papel epistêmico indispensável.

Transformar condições de possibilidade do conhecimento em teses sobre a estrutura última do ser é um erro categorial comum na tradição transcendental. A consciência pode ser epistemicamente irredutível sem ser ontologicamente fundamental no sentido metafísico forte.

Em suma: a consciência é transcendental apenas em um sentido fraco e interno à nossa constituição biológica. Ela não paira acima da natureza como princípio último, mas ocorre dentro dela como um fenômeno natural que, contingentemente, torna possível a ciência.
Humanista escreveu:
Seg, 09 Fevereiro 2026 - 18:14 pm
A consciência não é um objeto a mais dentro do mundo pra ser explicado igual digestão.
Dá pra explicar a objetividade a partir da subjetividade (intersubjetivamente).
Mas é necessariamente estruturalmente impossível extrair sujeitos de objetos.
Concordo que a consciência não é “um objeto a mais dentro do mundo” no mesmo sentido em que mesas ou moléculas o são. Para usar a terminologia de Searle, ela possui ontologia de primeira pessoa, enquanto mesas e neurônios possuem ontologia de terceira pessoa.

Mas daí não se segue que seja “estruturalmente impossível” que sujeitos sejam causados por processos objetivos. O que se segue apenas é que descrições objetivas não capturam exaustivamente a forma subjetiva da experiência, o que é um ponto epistemológico, não ontológico.

Quando se diz que “objetos não geram sujeitos”, pressupõe-se uma noção empobrecida de “objeto”, herdada do dualismo moderno, como algo essencialmente sem perspectiva. O naturalismo biológico rejeita essa imagem: cérebros são sistemas biológicos objetivos cuja organização causal é justamente aquilo que torna possível a emergência de estados subjetivos.

Não estamos tentando “extrair sujeitos de objetos”, mas explicar como certos sistemas objetivos, quando organizados de maneira adequada, têm estados com ontologia subjetiva. A alegada impossibilidade é conceitual e decorre de um vocabulário que separa rigidamente sujeito e objeto, não de um limite demonstrado da realidade.

Quanto à intersubjetividade: ela explica como a objetividade é estabilizada socialmente, mas não explica a origem dos sujeitos. Para Searle, a ordem explicativa é inversa: sujeitos biologicamente constituídos tornam possível a intersubjetividade, não o contrário.

A analogia com a digestão não é categorial, mas causal. Assim como não precisamos postular princípios extrafísicos para explicar a digestão, também não precisamos postular uma ontologia transcendental para explicar a consciência — ainda que ambos os fenômenos exijam níveis distintos de descrição.
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