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Parques bem cuidados morrem de pacifismo

Enviado: Ter, 22 Setembro 2026 - 06:30 am
por eremita
Traduzo livremente aqui um texto do Eliezer Yudkowsky.
Não concordo 100% com o que ele diz, mas acho que é produtivo de pensar nisto.


A principal causa de morte de comunidades boas da internet é a recusa em defender-se.
Isto está acontecendo agora mesmo, nalgum canto da rede. Era uma vez um "parque" bem cuidado, de discussão inteligente, cheio de gente informada e interessada, atraída pela qualidade do discurso que via ali. Até que um tolo entrou no parque, e destruiu parte desta qualidade — talvez um pouco, talvez muito; depende da frequência de participação do tolo. (É pior se o tolo é eloquente, a ponto dos veteranos sentirem-se obrigados a responder e corrigir suas tolices; daí o tolo domina a conversa.)
Agora o parque está emporcalhado, e não é tão prazeroso de usar. Os veteranos continuam, apegados ao lugar; mas há muito menos chances de atraírem novatos. Ou, se houver novatos, também serão piores.
Daí entra mais um tolo no parque, e um tolo dá corda ao outro. Alguns veteranos caem fora — os mais exigentes, com mais chance de encontrar parques melhores.
Embora fosse jovem na época, sou velho a ponto de lembrar da USENET*¹ esquecida. Ao contrário da primeira Internet, que morreu há muitos anos no Setembro Eterno, hoje em dia há sempre um jeito de remover conteúdo indesejado. Alguém sempre tem o poder de banir, graças ao spam: tão flagrante que ninguém defende, tão prolífico que ninguém ignora.
Mas, quando os tolos começam a invadir, há comunidades que creem que são boas demais para banir como forma de, putz, censura.
É assim, pessoas aculturadas pelo pensamento acadêmico sabem que a censura é um pecado gravíssimo… em universidades, parques murados nos quais cobra-se milhares de reais pela entrada, onde estudantes temem pelas suas notas, e onde os serviçais da limpeza jamais ousaria participar do colóquio.
É fácil ser ingênuo e ser contra censura, quando já vivendo num parque bem mantido. Assim como é fácil ser incondicionalmente pacisfista, num país com soldados armados nas fronteiras e polícia efetiva nas cidades. Padrões morais não custam nada… desde que a polícia faça seu trabalho.
No começo, quando a comunidade ainda florescia, via-se censura como imposição terrível e desnecessária. Ainda estava tudo bem; é só um tolo, se não tolerarmos nem mesmo um tolo, não somos lá muito tolerantes, né? Talvez desista e vá embora por si só, sem precisarmos censurá-lo. E se a comunidade inteira ficar menos prazerosa devido ao tolo… prazer não justifica censura, assim como não ir com a cara de alguém não justifica esmurrá-la.
Só que entrar numa comunidade é um processo estritamente voluntário; e, se membros novos em potencial não gostam do que veem, vão passar longe dela.
E outra: quem será o censor? A quem delegaremos este poder?
Provavelmente, num parque bem cuidado, pode-se delegá-lo a muitos. Mas se houver um pingo de divisão interna, de facções, se há quem participa sem confiar nos moderadores/administradores/etc. (nestes casos, parece que a política interna é muito mais importante que a mera invasão de bárbaros)… então, verão tentar defender a comunidade como golpe. Quem é este, que posa de juiz e carrasco? Acha mesmo que posse do servidor significa posse das pessoas? Da nossa comunidade? Crê ser um deus, só porque controla o código-fonte?
Admito que não entendia no passado por que comunidades sofrem tanto para defender-se; pensava ser só ingenuidade. Não percebia ser um instinto egalitário, para evitar que líderes tribais tenham poder demais. Como uma tribo de caçadores-coletores (cujo nome esqueci) dizia, "nenhum de nós é maior que o outro, somos todos homens e guerreiros; vou pegar minhas flechas." (Entre humanos, ao contrário de chimpanzés, armas são um equalizador; enquanto isto, acho que o líder tribal é produto da agricultura, de tempos em que não é mais possível "simplesmente" ir embora.)
Talvez porque cresci em lugares da internet onde sempre havia um operador de sistema, sempre achei natural que quem mantém o servidor tem certas responsabilidades. Talvez entenda intuitivamente que o oposto da censura não é o meio acadêmico, mas sim o 4chan (e olha que até o 4chan deve ter lá seus mecanismos prevenindo spam*²). Talvez por crescer num espaço amplo e aberto, onde a liberdade que importava era a de escolher um parque bem cuidado, do qual você gostava e que gostava de você, como se pudesse encontrar um país com leis boas. Talvez porque sempre achei natural que, se você não gosta do mestre-maior, vai embora e pronto (aliás, fiz isto uma vez).
E talvez porque volta-e-meia quem cuidava do servidor era eu. Mas sou consistente, normalmente o primeiro da fila a apoiar os moderatores — mesmo os que oponho na política interna. Sei o que acontece quando uma comunidade começa a desconfiar dos seus moderadores. Qualquer inimigo político que eu tinha numa lista de e-mails, que fosse popular a ponto de ser perigoso, seria alguém improvável de abusar deste poder específico da censura; e quando esta pessoa quando vestia o jaleco de moderador, eu encorajava a pessoa — ela precisava ser apoiada, e não derrubada. Quem cresceu num meio acadêmico simplesmente não entende como são altas as muralhas da exclusão, que mantém os "trolls" fora do seu jardim de "liberdade de expressão".
Normalmente, uma comunidade que precisa ver seus moderadores com desconfiança, cujos moderadores são abusivos, é uma que não merece ser salva. Mas, até onde vi, tais acusações não costumam ser reais.
De qualquer forma, foi há pouco tempo que caiu-me a ficha, que instintos egalitários (instintos para evitar líderes de exercer o poder) matam comunidades online. Aliás, caiu enquanto lia um comentário no Less Wrong, embora não lembre qual.
Mas vi isto acontecer — várias e várias vezes, enquanto eu instigava os moderadores e apoiava-os independentemente de gostar deles ou não, e ainda assim os moderadores não faziam o suficiente para previnir a decadência gradual. Humildes demais, duvidando muito mais de si mesmos que eu deles. Era um encontro de racionalistas, o terceiro pecado mais comum entre racionalistas é a falta de confiança própria.
Quanto à internet: qualquer um pode entrar numa comunidade. Qualquer um pode sair dela. E uma comunidade precisa ser divertida para continuar viva. Esperar até o flagrante absoluto, óbvio, inquestionável — tanto quanto um policial deve esperar para abrir fogo — rendendo-se à sua consciência e às virtudes que cultivou nas fortalezas muradas, esperar até ter certeza que está certo, sem temer olhares reprovatórios — é esperar demais.
Já vi comunidades racionalistas morrerem por confiar de menos nos seus moderadores. Mas não foi por karma.
Ouça — confiem em vocês mesmos.
Uma certa frase faz sentido aqui: "não acredite em si mesmo! Acredite que acredito em você!"*³
Porque eu realmente acredito que se você quer dar um voto negativo a um comentário que parece ser ruim… e mesmo assim você hesita, questionando-se se talvez está votando porque discorda da conclusão, ou não gosta do autor… sentindo-se nervoso, que talvez alguém vendo você pode acusá-lo de ser parte de uma câmara de eco, ou patotinha, ou de censura… aposto que 90% das vezes, no mínimo, o comentário em questão é realmente ruim.
Você tem o poder do voto negativo. Use-o ou USENET.

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Notas de tradução:
  1. A USENET é um sistema de discussões de 1980. Extremamente influente. Entrou em declínio no fim dos anos 90, começo dos 00; creio eu que porque a qualidade da discussão decaiu.
  2. O 4chan sempre teve muitos sistemas anti-spam: moderação, filtros de palavras, etc. Interessante notar que a moderação sempre foi ridicularizada; já no começo, alegavam que um dos moderadores gostava de pornografia infantil (não sei se é verdade). E até hoje há o "he does it for free!" meme, que ridiculariza os "janitors" (zeladores; a casta baixa dos moderadores do 4chan) com o meme "he does it for free!" ("ele faz de graça!"), como se fossem desempregados trabalhando de graça. (E comendo hot pockets.)
  3. Por acaso conheço a fonte desta frase, é uma série de anime chamada Tengen Toppa Gurren Lagann. Um dos personagens (o Simon) tem muito medo de agir, então o outro (o Kamina) sempre fala isto para ele. Aliás, recomendo muito a série.