Clube Ceticismo
Refletindo sobre ceticismo e experiências espirituais
Autor: Ricardo | Categoria: Ceticismo | Exibições: 13694 Comentários: 23
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Boa. Não tem problema nenhum operarmos com materialismo de uma maneira "instrumental", isto é, procurando causas internas ao mundo observável etc. O problema é dar o salto de absolutizarmos o naturalismo concedendo-lhe o estatuto de uma verdadeira "cosmovisão", o que extrapolar o terreno da ciência. Recentemente eu escrevi um post sobre isso nas redes sociais:

Chrystian RevellesA "NATUREZA" NÃO EXISTE!

Husserl escreveu um livro sobre "A Crise Das Ciências Europeias" (Die Krisis). Ele era um anti-naturalista. Significa que questionava os fundamentos do materialismo científico tal como pregado pelos positivistas da época. Claro que uma coisa é a >pesquisa< "materialista" num sentido puramente metodológico (instrumental, como mero método de análise das causas e condições e relações e contradições etc no interior de um sistema, como fez Karl Marx com O Capital); e a outra é quando os materialistas fazem, desse mapa, um território -- ao se pronunciarem acerca da natureza da realidade. Até mesmo um existencialista como Jean-Paul Sartre admite que: "[...] sempre me pareceu que uma hipótese de trabalho tão fecunda como o materialismo histórico não requeria absolutamente como fundamento essa absurdidade que é o materialismo metafísico [...]" (A Transcendência Do Ego, 1936). Isso que chamamos de "leis naturais" nada mais são senão modelos idealizados que nós construímos observando habitualmente as regularidades do que acontece. Não tem problema nenhum utilizarmos estas descrições enquanto nos mantivermos bem cientes de que não passam disso - convenções úteis - reificações operacionais. Pragmaticamente, podemos falar "em termos de" natureza & leis enquanto tais mapas "funcionarem" para "fazer coisas" no-mundo. Mas nada disso legitima o "salto" 'utilidade' → 'metafísica'. Não. Aquele universo puramente abstrato e objetificado da teorização científica é só uma representação útil - elaboração conceptual posterior àquilo que é imediatamente vivido como terreno absoluto -- o fluxo de vivências no qual se originam todas as significações. Os Sujeitos. As Mônadas. Manifestação original do existente como tal: espontaneidade pura -- consciência absoluta -- abertura primordial -- condição primeira e fonte ou essência da Existência que se descobre antes de toda definição (O Ser). Como pensar o existir como objeto se a objetividade dos objetos se constitui na e pela subjetividade dos sujeitos? É con-fundir ontologia com epistemologia / tentar explicar a fundação pelo fundado! Empirismo radical – verdadeiro positivismo –, seria, ao revés, voltar à Vida (Leben)



No que diz respeito ao naturalismo, não sabemos se uma distinção legítima entre entidades sobrenaturais e entidades naturais é passível de ser feita em termos conceituais. Mesmo que existam divindades, espíritos e fantasmas, nada impede que eles sejam “naturais”, isto é, que façam parte do conjunto de leis, elementos ou fenômenos do mundo físico. Se chamarmos de “sobrenatural” tudo aquilo que parece fugir a qualquer tentativa de compreensão direta, então o sistema de ecolocalização do morcego já foi um exemplo histórico de “sobrenatural”. Ainda assim, mesmo que algo pudesse ser agora alcunhado como “sobrenatural”, duvido que teríamos razão para manter permanentemente o status desse termo, especialmente se a humanidade e o progresso do seu conhecimento sobreviverem por muito tempo.

Agora, mudando de assunto para um questionamento sobre a metafísica da ciência: ela pode ser extrapolada para além da própria ciência? Sim, pode. Vou aqui utilizar um argumento do filósofo John Searle (1932–2025). Negar que exista uma maneira de se verificar como as coisas são no mundo, independentemente de nossas representações, já constituiria um fato sobre como o mundo é, e pressuporia, portanto, o realismo. Por essa razão, em um nível ou outro, o realismo externo não deveria ser tomado apenas como um ponto de vista, uma vez que o antirrealismo é um conceito autorrefutatório.

Eu prefiro a distinção empírico-transcendental (Kant/Husserl) do que natural-sobrenatural.

Empírico é aquilo que está situado internamente ao observável, a realidade "objetiva" compartilhada por nós.

Só que não podemos esquecer que esta é condicionada pela estrutura das nossas próprias mentes.

Por isso temos que considerar também um outro nível subjacente ("transcendental").

Que não "aparece", por ser a "condição de possibilidade" do "aparecer".
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Boa. Não tem problema nenhum operarmos com materialismo de uma maneira "instrumental", isto é, procurando causas internas ao mundo observável etc. O problema é dar o salto de absolutizarmos o naturalismo concedendo-lhe o estatuto de uma verdadeira "cosmovisão", o que extrapolar o terreno da ciência. Recentemente eu escrevi um post sobre isso nas redes sociais:

Chrystian RevellesA "NATUREZA" NÃO EXISTE!

Husserl escreveu um livro sobre "A Crise Das Ciências Europeias" (Die Krisis). Ele era um anti-naturalista. Significa que questionava os fundamentos do materialismo científico tal como pregado pelos positivistas da época. Claro que uma coisa é a >pesquisa< "materialista" num sentido puramente metodológico (instrumental, como mero método de análise das causas e condições e relações e contradições etc no interior de um sistema, como fez Karl Marx com O Capital); e a outra é quando os materialistas fazem, desse mapa, um território -- ao se pronunciarem acerca da natureza da realidade. Até mesmo um existencialista como Jean-Paul Sartre admite que: "[...] sempre me pareceu que uma hipótese de trabalho tão fecunda como o materialismo histórico não requeria absolutamente como fundamento essa absurdidade que é o materialismo metafísico [...]" (A Transcendência Do Ego, 1936). Isso que chamamos de "leis naturais" nada mais são senão modelos idealizados que nós construímos observando habitualmente as regularidades do que acontece. Não tem problema nenhum utilizarmos estas descrições enquanto nos mantivermos bem cientes de que não passam disso - convenções úteis - reificações operacionais. Pragmaticamente, podemos falar "em termos de" natureza & leis enquanto tais mapas "funcionarem" para "fazer coisas" no-mundo. Mas nada disso legitima o "salto" 'utilidade' → 'metafísica'. Não. Aquele universo puramente abstrato e objetificado da teorização científica é só uma representação útil - elaboração conceptual posterior àquilo que é imediatamente vivido como terreno absoluto -- o fluxo de vivências no qual se originam todas as significações. Os Sujeitos. As Mônadas. Manifestação original do existente como tal: espontaneidade pura -- consciência absoluta -- abertura primordial -- condição primeira e fonte ou essência da Existência que se descobre antes de toda definição (O Ser). Como pensar o existir como objeto se a objetividade dos objetos se constitui na e pela subjetividade dos sujeitos? É con-fundir ontologia com epistemologia / tentar explicar a fundação pelo fundado! Empirismo radical – verdadeiro positivismo –, seria, ao revés, voltar à Vida (Leben)



No que diz respeito ao naturalismo, não sabemos se uma distinção legítima entre entidades sobrenaturais e entidades naturais é passível de ser feita em termos conceituais. Mesmo que existam divindades, espíritos e fantasmas, nada impede que eles sejam “naturais”, isto é, que façam parte do conjunto de leis, elementos ou fenômenos do mundo físico. Se chamarmos de “sobrenatural” tudo aquilo que parece fugir a qualquer tentativa de compreensão direta, então o sistema de ecolocalização do morcego já foi um exemplo histórico de “sobrenatural”. Ainda assim, mesmo que algo pudesse ser agora alcunhado como “sobrenatural”, duvido que teríamos razão para manter permanentemente o status desse termo, especialmente se a humanidade e o progresso do seu conhecimento sobreviverem por muito tempo.

Agora, mudando de assunto para um questionamento sobre a metafísica da ciência: ela pode ser extrapolada para além da própria ciência? Sim, pode. Vou aqui utilizar um argumento do filósofo John Searle (1932–2025). Negar que exista uma maneira de se verificar como as coisas são no mundo, independentemente de nossas representações, já constituiria um fato sobre como o mundo é, e pressuporia, portanto, o realismo. Por essa razão, em um nível ou outro, o realismo externo não deveria ser tomado apenas como um ponto de vista, uma vez que o antirrealismo é um conceito autorrefutatório.

Eu prefiro a distinção empírico-transcendental (Kant/Husserl) do que natural-sobrenatural.

Empírico é aquilo que está situado internamente ao observável, a realidade "objetiva" compartilhada por nós.

Só que não podemos esquecer que esta é condicionada pela estrutura das nossas próprias mentes.

Por isso temos que considerar também um outro nível subjacente ("transcendental").

Que não "aparece", por ser a "condição de possibilidade" do "aparecer".


Embora nossas construções conceituais sejam humanas e historicamente situadas, o sucesso empírico das teorias científicas não parece depender apenas disso. Ainda que categorias como entidade, lei e causalidade sejam construções conceituais falíveis, o êxito explanatório e tecnológico das teorias indica que elas capturam aspectos reais da estrutura do mundo, independentemente da subjetividade transcendental. As estruturas conceituais funcionam como ferramentas históricas revisáveis, mas o mundo impõe restrições independentes às teorias, não redutíveis às formas da subjetividade. O que tende a sobreviver às mudanças teóricas não são entidades “em si”, mas relações e estruturas que permanecem estáveis através de diferentes quadros conceituais.

Além disso, afirmar que “toda objetividade é constituída na subjetividade transcendental”, para então acrescentar que isso não descreve um fato sobre o mundo, mas apenas elucida o que significa falar de mundo, não escapa à objeção anterior. Falar de “condições de possibilidade universais” já envolve uma afirmação com pretensão objetiva, isto é, uma tese que pretende valer independentemente de perspectivas particulares. Com isso, admite-se implicitamente ao menos um realismo externo mínimo: a existência de fatos que não dependem de nossas representações. É nesse sentido que se pode compreender por que toda afirmação com pretensão objetiva carrega um compromisso ontológico, ainda que se tente apresentá-la como meramente transcendental ou sem implicações metafísicas.
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Data da postagem: 22/01/2026, 07:25
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Embora nossas construções conceituais sejam humanas e historicamente situadas, o sucesso empírico das teorias científicas não parece depender apenas disso. Ainda que categorias como entidade, lei e causalidade sejam construções conceituais falíveis, o êxito explanatório e tecnológico das teorias indica que elas capturam aspectos reais da estrutura do mundo, independentemente da subjetividade transcendental. As estruturas conceituais funcionam como ferramentas históricas revisáveis, mas o mundo impõe restrições independentes às teorias, não redutíveis às formas da subjetividade. O que tende a sobreviver às mudanças teóricas não são entidades “em si”, mas relações e estruturas que permanecem estáveis através de diferentes quadros conceituais.

Isso pra mim é um ponto positivo pro teísmo, pois aponta para uma idealidade inerente à realidade, de modo que o conhecimento venha justamente do abstrair destas "estruturas" formais que podem ser representadas sob uma engenharia reversa da qual a mente humana é capaz -- o que é muito estranho para um mero acidente da seleção natural (conseguir inteligir assim, ainda mais com o sucesso da física e da matemática). Se não o teísmo, ou, pelo menos, um certo platonismo deflacionado e sofisticado, mais "estruturalista" do que "idealista" (metafísico).
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